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Mia Couto, Sérgio Abranches e Eduardo Góes Neves encerram o Fliparacatu em conversa sobre natureza

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Como os brasileiros se relacionam com a natureza que os envolve? Esta foi uma das questões levantadas durante a mesa de encerramento da primeira edição do Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu). “A natureza desnaturada” foi o tema da mesa, que teve como convidados os escritores Mia Couto, Sérgio Abranches, Eduardo Góes Neves e Afonso Borges, o diretor do Festival, que mediou o bate-papo.

Politólogo e autor de uma série de romances como “O intérprete de borboletas”, Sérgio introduziu a mesa falando sobre a forma distorcida com que a natureza é vista e tratada muitas vezes. “A natureza é desnaturalizada quando ela é vista simplesmente como objeto, um recurso que deve ser usado em benefício próprio, para interesse imediato daquelas pessoas que a estão explorando”, afirmou.

O escritor moçambicano Mia Couto, Autor Homenageado do evento, falou em seguida sobre a necessidade de se mudar a visão sobre os recursos naturais. “Continuamos colocando-nos no centro, como os agentes principais de mudança. Temos de assumir que o nosso lugar não é aquele que o discurso divino, que o discurso mitológico, colocou como sendo o topo da evolução e o administrador dos chamados recursos.”, disse Mia.

Eduardo Góes Neves, mestre e doutor em Arqueologia pela Universidade de Indiana e livre-docente pela USP, concordou com o moçambicano. “Essa ideia de separar a natureza da cultura, que funda, de certo modo, essa visão de mundo, essa antologia, que nos trouxe ao lugar em que estamos hoje, pode nos levar, em última análise, à destruição do planeta”, afirmou Eduardo, que é autor de obras como “Sob os tempos do Equinócio: 8.000 anos de história na Amazônia Central” e “Arqueologia da Amazônia”.

Mia acredita que, para mudar este cenário de destruição do meio ambiente em prol dos interesses econômicos, é preciso encarar toda a complexidade deste problema e não enxergar ele de modo isolado. “Para conseguir reverter este processo de degradação, não basta fazer um movimento de defesa ambiental ou ecológico. É preciso que essa mudança não se confine em um gueto. Que não reservemos essa luta como se fosse uma luta separada das outras grandes lutas que temos. Trata-se de mudar a economia, de mudar a política e, sobretudo, a maneira de se pensar o mundo”, disse Mia.

O Fliparacatu aconteceu de quarta, 23/8, até hoje, domingo, 27/8, no Centro Histórico da cidade mineira de Paracatu. O Festival teve como tema “Arte, Literatura e Ancestralidade”, homenageando dois importantes nomes da literatura: a belo-horizontina Conceição Evaristo e o moçambicano Mia Couto, que estiveram presentes no evento. Além deles, participaram da programação mais de 60 autores, entre eles Eliana Alves Cruz, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenorio e Tom Farias. Todas as atividades foram gratuitas.

O Festival Literário de Paracatu é patrocinado pela Kinross, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e tem o apoio da Prefeitura Municipal de Paracatu, da Paróquia de Santo Antônio e do Projeto Portinari.