Com o Auditório lotado, Rita von Hunty, Gustavo Ziller e Marcelino Freire encerraram a programação desta quarta-feira (26) em uma conversa sobre corpo, gênero, literatura, natureza e as ideias de limite e transformação.

O Auditório do 4.º Fliparacatu estava lotado quando Rita von Hunty e Gustavo Ziller chegaram para conversar sobre “Corpo e Travessia”. Mediado por Marcelino Freire, o encontro reuniu duas trajetórias aparentemente muito distantes: de um lado, a crítica cultural, educadora popular e autora de “Formas de narrar um corpo”; de outro, o atleta, apresentador e escritor de “Escalando Sonhos”, que transformou sua experiência no Everest em uma reflexão sobre limites, vulnerabilidade e propósito. Ao longo da noite, porém, as distâncias diminuíram. A conversa passou por catástrofes climáticas, violência de gênero, infância, masculinidades, literatura e democracia para chegar a uma pergunta maior: que narrativas estamos usando para compreender o mundo — e que mundo elas ajudam a construir?

A Kinross apresenta a quarta edição do Fliparacatu, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o patrocínio da Caixa e apoio cultural da Prefeitura de Paracatu, Academia de Letras do Noroeste de Minas e Sebrae. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo Youtube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).

Marcelino Freire abriu a última conversa da noite desta quarta-feira (26) lembrando a tragédia recente na região do Nepal e do Tibete, onde uma avalanche provocada por um terremoto rompeu uma barragem natural e deixou mortos e desaparecidos. A escolha não foi casual. Para uma mesa sobre corpo e travessia, falar de uma catástrofe em uma região tão ligada à trajetória de Ziller significava começar pelo corpo diante de algo que não pode ser controlado.

Rita lembrou que o mundo atravessa uma sequência de catástrofes climáticas e aproximou o episódio de outras tragédias brasileiras, como Brumadinho. Em meio à conversa, recuperou um pensamento que a marcou: estamos experimentando o colapso global como uma sucessão de vídeos de tragédias vistos pelas telas dos celulares — até o dia em que seremos nós as pessoas dentro desses vídeos. A imagem é incômoda justamente porque fala de distância. O desastre chega primeiro como notícia, como imagem, como conteúdo que aparece na tela e desaparece para dar lugar ao próximo. A sensação de que aquilo acontece sempre em algum outro lugar, porém, pode não durar para sempre.

Para Ziller, a discussão tinha uma dimensão ainda mais pessoal. Com uma trajetória marcada pelas montanhas e por expedições ao redor do mundo, ele contou que tem um amigo desaparecido na tragédia. Falou sobre a tristeza diante das famílias atingidas e, ao final, deixou uma mensagem:

 

Nosso amor para esse povo, desde Paracatu”.

 

 

Quando o corpo deixa de caber nas velhas categorias

Em outro momento, Rita apresentou algumas das questões de Formas de narrar um corpo, livro em que investiga as relações entre gênero, sexualidade, linguagem e poder. “Que diabo é gênero? Que diabo é sexualidade?”, provocou. Para Rita, o sistema sexo-gênero chegou a um ponto de falência. O número de feminicídios, os atentados e a violência contra mulheres, crianças e pessoas LGBTQIA+ seriam, em sua leitura, sinais de que as formas tradicionais de organizar e hierarquizar os corpos já não podem continuar sendo tratadas como naturais ou inevitáveis.

Ela aproximou essa discussão de acontecimentos e fenômenos contemporâneos, como o caso Epstein, a série Adolescência, da Netflix, e o caso de Gisèle Pelicot, que se tornou símbolo internacional da luta contra a violência sexual. Rita  apresentou esses episódios como manifestações claras de uma estrutura de poder. “As formas de violência são um enunciado político sendo comunicado entre homens numa hierarquia de poder”, afirmou, ao criticar também o movimento Red Pill e as comunidades virtuais que propagam determinadas ideias sobre masculinidade e relações entre homens e mulheres.

A conclusão veio em tom de alerta — e também de convocação: “Esse sistema faliu, e a gente vai precisar criar outra coisa no lugar disso”. A fala ajudou a deslocar o sentido da palavra “corpo” na mesa. Não se tratava apenas do corpo físico, mas dos significados que a sociedade coloca sobre ele, das expectativas que o acompanham e das relações de poder que determinam quais corpos são autorizados, protegidos, desejados ou violentados.

 

A montanha não transforma ninguém em herói

Ziller encontrou um caminho surpreendentemente próximo ao de Rita a partir de uma experiência completamente diferente. Em Escalando Sonhos, ele revisita a expedição que o levou ao Everest, depois de uma trajetória que começou com um diagnóstico de burnout e depressão e com a decisão de abandonar o ritmo frenético da publicidade. A montanha poderia facilmente produzir uma narrativa tradicional de superação: homem enfrenta seus limites, chega ao topo e volta transformado. Mas não é essa a história que ele viveu, nem a que quis contar.

Ziller observou que, no ambiente das escaladas no Nepal, percebeu uma presença forte de homens tentando provar alguma coisa uns aos outros. O sofrimento aparece, nesse universo, quase como uma espécie de certificado de valor: quem aguenta mais, quem chega mais longe, quem suporta mais dor. Ele se contrapõe justamente a essa lógica. Subir uma montanha, explicou, não torna automaticamente ninguém uma pessoa melhor.

E foi ainda mais direto: “Um estuprador vai subir o Everest e vai voltar estuprador. É sobre isso que eu escrevo”. A frase desmonta uma falsa ideia de “jornada de superação” que poderia envolver a história do Everest. A travessia não é uma máquina de produzir heróis. 

 

 

Antes do Everest, havia Belém. Antes da drag, havia a biblioteca

Ziller nasceu em Belo Horizonte, mas passou boa parte da infância em Belém. Lembrou daquele período com carinho, falando das bicicletas, do futebol jogado no caminho e da liberdade de estar em contato com a natureza. “Fui educado em cartilha indígena”, contou, ao falar de sua formação ali. Ele se lembra pouco da infância em Belo Horizonte, mas guarda de Belém imagens sensoriais muito precisas: cor, cheiro, natureza. É também de lá que parece vir uma curiosidade que permanece em sua vida adulta.

 

“Essa história de eu buscar essa curiosidade na natureza, viver a natureza –– afinal de contas somos a natureza –– vem da minha infância”

 

Rita percorreu outro caminho para falar de sua formação. Contou que sempre foi “bicha, bichérrima” e relembrou o início de sua trajetória como drag queen, inclusive a origem do nome Rita von Hunty — Rita em homenagem à atriz Rita Hayworth, Von inspirado em Dita Von Teese e Hunty vindo de uma expressão da cultura drag norte-americana. Mas, por trás da personagem, estava também uma criança cercada por livros. A avó e a mãe eram professoras, e sua casa tinha uma biblioteca. “O livro sempre foi e é um lugar da minha infância”, contou. É uma lembrança que ilumina “Formas de narrar um corpo” por outro ângulo. Antes de discutir gênero como estrutura social, Rita já observava, desde criança, os papéis e performances que eram esperados das pessoas.

 

 

O chegar ao topo — e o voltar a si

A conversa voltou então para a própria imagem de Ziller. Ele refletiu sobre ser um homem branco, cisgênero e heterossexual e sobre como essa identidade pode ser facilmente aceita, consumida e transformada em produto. É justamente por isso, explicou, que “Escalando Sonhos” foi um desafio. Ele queria contar uma história de superação sem transformá-la em uma narrativa comercial pronta, daquelas em que sofrimento necessariamente produz sucesso e o sucesso necessariamente produz uma versão melhor do indivíduo.

Ziller contou também que foi educado para questionar padrões de gênero, que tenta levar esse exercício para a própria vida, e que hoje é um “Gustavo trabalhado na terapia”. A expressão tem humor, mas também resume uma das ideias mais interessantes da mesa. Se a montanha não transforma ninguém magicamente, talvez a reinvenção aconteça justamente no trabalho cotidiano de olhar para si mesmo — para aquilo que aprendemos, repetimos e podemos escolher não repetir.

 

 

Uma democracia precisa de leitores

Rita Von Hunty também falou sobre a urgência de formar novos leitores.

 

“A democracia é um regime de leitores”

 

Para ela, a democracia depende da “palavra escrita, da palavra lida, da palavra debatida” e da capacidade de deliberação. Ler não seria, portanto, apenas uma atividade cultural ou um hábito individual, é também uma prática política: exige atenção, interpretação, confronto de ideias e disposição.

A defesa da leitura também dialoga com tudo o que havia sido discutido até então. Se os corpos são moldados por narrativas, se determinadas violências se sustentam por discursos e se nossas imagens de nós mesmos podem ser transformadas em mercadoria, aprender a ler criticamente essas narrativas passa a ser uma forma de resistência.