A tarde de abertura do 4.º Fliparacatu reuniu crianças, artistas e público em diferentes espaços do Centro Histórico de Paracatu. Contação de histórias, teatro, artes manuais e o resgate da memória cultural da cidade ocuparam a programação desta quarta-feira (26), em uma tarde que teve ainda a música como caminho para revisitar a obra de João Guimarães Rosa e a própria história de Paracatu.

 

Histórias para ouvir e imaginar

No Auditório, as crianças acompanharam duas atividades de contação de histórias. “Margarida de Malas Prontas”, com Daniela Prado, convidou o público de 5 a 7 anos para uma tarde de imaginação e narrativa. Mais tarde, foi a vez de “Vó Tereza”, com Terezinha de Jesus Santana Guimarães, aproximar crianças de até 10 anos das histórias e da tradição oral.

A programação infantil também ganhou o palco com o espetáculo “Quase Nada”, do Grupo Cênikas, aberto a todas as idades. Entre histórias e brincadeiras, o teatro entrou na programação como mais uma forma de aproximar o público infantil da criação artística.

 

Arte feita com as mãos

Na Estação Literária da Praça, a oficina “Macramê: Arte com os Nós”, com Raquel Neiva, levou o público a experimentar a criação a partir dos fios e dos nós. Na Praça Ademar da Silva Neiva, o projeto “Tecendo Memórias” apresentou outra forma de preservar histórias por meio do fazer manual: durante duas horas, o grupo mostrou o processo de transformação do algodão em fio natural, da separação da fibra à fiação artesanal.

 

Quando Rosa encontra a música de Paracatu

Se a literatura de João Guimarães Rosa tem uma musicalidade própria, em Paracatu ela encontrou terreno fértil para continuar cantando. Foi a partir dessa ideia que o escritor, compositor, músico e produtor cultural Silvano Avelar, professor e escritor Isaías Nery Ferreira e a filósofa e produtora cultural Edina Sueli das Dores conduziram, no auditório, a mesa “A influência roseana na música em Paracatu”. O encontro percorreu a musicalidade da obra de Rosa, a tradição oral mineira e a memória dos compositores da cidade.

Os convidados abriram a conversa lembrando que a musicalidade é uma das características marcantes da cidade. Antes mesmo de falar de Rosa, a mesa apresentou um pouco dessa tradição: Edina contou sobre o projeto “Cantos que Contam: Resgate de um legado musical”, resultado de uma pesquisa musical realizada por Edina e Silvano, e realizado em conjunto com o Coral Stella Maris. Criado em 1995, o projeto busca valorizar e recuperar a memória de poetas e compositores paracatuenses. O coral apresentou duas das doze canções que integram o EP, com faixas como ”Tapera”, “Oi que bom”, “Traiçoeiros” e “Hino a paracatu”.

A conversa então atravessou o sertão mineiro de Rosa. Silvano lembrou que o próprio escritor reconhecia a musicalidade de sua obra e relacionou essa característica ao modo de falar de Minas Gerais. “Nós mineiros temos a mania de falar cantado”, brincou Avelar. Para ele, essa sonoridade ajuda a explicar a presença de Guimarães Rosa na criação de tantos músicos e compositores, que encontram na linguagem do escritor, em seus neologismos e nos ditos populares de “Grande Sertão: Veredas”, matéria para novas canções. “Nonada” e outras expressões roseanas apareceram na conversa como exemplos de uma linguagem que, para Silvano, não precisa ser distante ou difícil para o leitor mineiro. A musicalidade, nesse caso, não está apenas nas palavras escolhidas por Rosa, mas no jeito de dizê-las, ouvi-las e fazê-las circular.

 

Uma história que também é musical

Ao recuperar essa relação entre literatura e música, Silvano trouxe para a conversa o Grupo Sertões e Veredas, coletivo musical que marcou a cena cultural de Paracatu e teve destaque nos festivais de música realizados na cidade durante a década de 1980. A trajetória do grupo integra uma história mais ampla de preservação da cultura local e ajuda a compreender como a música se tornou parte importante da identidade cultural de Paracatu.

Foi nesse momento que a mesa ganhou uma imagem particularmente interessante: Rosa não foi músico, mas sua obra continuou sendo cantada por outros. “Rosa não foi poeta (…) ele era um autor de prosa, de romance. Ele não era músico, mas é interessante perceber a quantidade de músicas que vieram inspiradas em Guimarães Rosa”, disse Silvano.

 

As vozes de Paracatu

Edina retomou a conversa a partir de outra experiência de preservação cultural: o Festival do Patrimônio Cultural, evento que reúne música, arte e gastronomia e que se tornou parte da trajetória cultural de Paracatu. A partir das memórias da cidade e do sertão mineiro, ela e Silvano passaram a compartilhar trechos de músicas de artistas paracatuenses que dialogam com a obra de Rosa.

A literatura voltou a aparecer, desta vez na voz de Silvano, que leu um poema de “Incontroversos”, seu livro de poemas que também integra o catálogo da Livraria do Fliparacatu. No fim, a conversa deixou uma ideia que atravessou toda a tarde: a influência de Rosa em Paracatu não está apenas nas referências diretas à sua obra. Ela também pode ser percebida na maneira como a cidade guarda suas histórias, canta seus autores, preserva suas vozes e transforma memória em criação.

E a música de Rosa ainda vai voltar a ocupar a programação do festival.

 

Sábado Musical de Rosa

No sábado (29), a Casa Paracatu recebe o “Sábado Musical de Rosa”, a partir das 18h. A programação celebra os 70 anos de Grande Sertão: Veredas com três momentos musicais: a apresentação da Banda Lyra Paracatuense, o repertório inspirado em Sagarana, de João Guimarães Rosa, com o músico Celso Adolfo, e a aula-espetáculo “Travessia Roseana”, com Titane e Makely Ka.

Todas as atividades do Fliparacatu são gratuitas, acessíveis e abertas ao público.

 

Serviço

4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)

De 26 a 30 de agosto de 2026, quarta a domingo

Local: Centro Histórico de Paracatu

Entrada gratuita

Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu

Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br