
Jeferson Tenório, Taiane Santi Martins e Calila das Mercês atravessam histórias de família, guerras, territórios e experiências negras em conversa sobre o fazer literário
Boas histórias podem nascer de uma lembrança de família, de uma viagem, de uma pesquisa, de uma pergunta que permanece sem resposta. Na mesa “Escritas e Travessias”, realizada nesta quarta-feira (26), no 4º Fliparacatu, Jeferson Tenório e Taiane Santi Martins, sob mediação de Calila das Mercês, partiram justamente desses lugares para conversar sobre o que acontece quando experiências de deslocamento, pertencimento e memória encontram a literatura. Autor de “De onde eles vêm”, Jeferson chegou ao encontro depois de transformar uma história familiar em ficção; Taiane, autora de Mikaia, levou para a conversa a experiência de escrever entre Brasil e Moçambique.
A Kinross apresenta a quarta edição do Fliparacatu, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o patrocínio da Caixa e apoio cultural da Prefeitura de Paracatu, Academia de Letras do Noroeste de Minas e Sebrae. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo Youtube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).
Quando uma história particular começa a falar de muitas vidas
As obras mais recentes dos autores convidados da mesa partem de um ponto de vista feminino e a primeira pergunta de Calila já apontava para esta questão central: por que foram as mulheres que permitiram que aquelas histórias fossem escritas? E o que uma narrativa particular consegue revelar sobre um país que os registros oficiais não dão conta de contar?
Jeferson encontrou a resposta dentro de casa. Ele relembra seu livro “Estela sem Deus”, publicado em 2022, e remonta a origem da obra na história de sua mãe, que se mudou para o Rio de Janeiro e o processo dela para se tornar mãe de santo e cartomante. No entanto, escrever sobre a própria família não significava simplesmente reproduzir sua história literalmente. Havia, para Jeferson, uma fronteira entre aquilo que pertence à memória e aquilo que pode se transformar em livro. “Eu preciso contar essa história, mas ao mesmo tempo eu não podia contar a história da minha mãe”, explicou. Foi justamente nesse espaço entre lembrança e invenção que nasceu Estela, uma filósofa que carrega sua própria história e travessia.
O gesto de criar uma personagem a partir de uma experiência tão íntima não diminui a história original. Ao contrário: permite que ela se descole da biografia e alcance outras vidas. Jeferson falou justamente sobre essa passagem. Quanto mais particular é uma história, observou, mais ela pode se tornar universal. Ao escrever sobre uma mulher negra e sobre sua busca por dignidade, o escritor também encontra uma maneira de falar de um país inteiro — das estruturas que determinam quem pode ser ouvido, lembrado e reconhecido.
“No fim das contas, o que a Estela quer é um pouco de dignidade”
Taiane também encontrou nas mulheres e nas minúcias uma porta de entrada para a literatura. Formada em História e doutora em Escrita Criativa, ela contou que sua relação com a ficção sempre esteve próxima da pesquisa. Em Mikaia, romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2022, a escritora aproxima Brasil e Moçambique a partir de personagens marcados pela imigração, pela guerra, pelo trauma e pelos vínculos familiares.
A protagonista também precisa encontrar seu lugar no mundo. E a própria trajetória de Taiane acabou se confundindo, em certa medida, com a travessia de sua personagem: Mikaia foi parcialmente escrito durante o período em que a autora viveu na Ilha de Moçambique. Ao falar sobre as mulheres em contextos de guerra, Taiane deixou uma pergunta que ultrapassa a ficção: “Por que algumas guerras são mais importantes do que outras?”. A questão urgente que aponta para aquilo que permanece nas margens dos grandes relatos históricos — vidas que experimentam a violência, o deslocamento e a perda, mas que nem sempre aparecem nas narrativas consideradas oficiais.
A literatura como passagem para outro lugar
Para Taiane, escrever Mikaia não foi apenas contar uma história situada entre dois países. O livro também modificou a pessoa que o escreveu. A pesquisa do doutorado e o processo de criação a levaram até Moçambique, onde passou a viver e a escrever. A autora convidada contou que conheceu a cidade inicialmente pela literatura de Mia Couto — também convidado do 4º Fliparacatu — e falou da literatura como uma possibilidade concreta de deslocamento.
“Gosto muito de pensar a literatura como essa porta que me leva pra outro lugar”, afirmou.
A frase ajuda a entender uma das forças de Mikaia: a literatura, nesse caso, não funciona como uma janela pela qual o leitor apenas observa uma realidade distante. Ela é uma porta: exige passagem, aproximação e disposição para entrar em uma experiência que não é necessariamente a sua. Por isso, Taiane também falou sobre a responsabilidade de quem escreve. Para ela, a palavra tem uma força “inimaginável” e escrever sobre questões relevantes do presente exige disposição para olhar o mundo antes de tentar explicá-lo. A literatura, disse, é um exercício de “estar aberto ao mundo”.
É uma ideia que se aproxima da própria estrutura de “De onde eles vêm”. O romance de Jeferson também parte de um movimento: Joaquim retorna às próprias origens para revisitar aquilo que ficou para trás. Em vez de tratar o pertencimento como algo pronto, os dois livros parecem encontrar nele uma pergunta em aberto — o que significa pertencer a um lugar, a uma história ou a uma família?
Nem toda travessia é possível para todos
Ao refletir sobre a palavra “travessia”, Jeferson lembrou que deslocar-se pode parecer um gesto simples quando não se considera quem teve, historicamente, o direito de fazê-lo. “Quantas realidades negras foram apagadas justamente por causa da criminalização do deslocamento?”, perguntou o autor. A pergunta deslocou o sentido da palavra. A travessia deixou de ser apenas uma passagem entre dois pontos e passou a significar também acesso, liberdade e possibilidade de existência.
“Em quantos espaços mulheres podem caminhar sem temer?”
A discussão aproximou experiências que, à primeira vista, poderiam parecer distantes: a personagem que procura seu lugar, a mulher que atravessa uma guerra, o escritor que viaja para outro país e o povo negro cuja travessia do Atlântico foi marcada pela escravização. No caso de Jeferson, essa última imagem voltou com força quando ele contou sobre seu próximo trabalho. O escritor vem idealizando um livro de não ficção sobre a escrita literária na vida de pessoas negras e sobre o que acontece quando a literatura chega a essas vidas –– obra que parte também de sua própria trajetória e é pensada como “um tributo àquilo que a literatura lhe deu e continua dando”.
Para falar desse processo, Jeferson recorreu ao mar. Disse que tem pensado muito nas ondas e que tanto escritor quanto leitor precisam atravessá-las para chegar ao alto-mar e dar suas próprias braçadas. A metáfora ganha outra dimensão quando relacionada à história que ele próprio trouxe para a conversa: a travessia do Atlântico feita pelos povos negros escravizados e as marcas que ela deixou no presente. O mar, que poderia representar liberdade ou descoberta, aparece também como memória de uma violência e dívida histórica que ainda precisa ser reparada.
Escrever também é começar de novo
A imagem do mar ainda ajuda a compreender outra questão compartilhada pelos escritores: a sensação de que cada novo livro exige uma nova travessia.
Jeferson contou que tem a impressão de começar do zero sempre que inicia um novo trabalho. Taiane reconheceu a mesma sensação e falou sobre seu interesse atual por ilhas e arquipélagos, tema que surgiu também de sua experiência em Moçambique.
Talvez por isso a conversa tenha passado tantas vezes pela ideia de movimento. Nenhum dos autores falou da literatura como um lugar de chegada definitiva. Escrever parece ser, para eles, uma forma de continuar perguntando — sobre as próprias origens, sobre os lugares que ocupamos, sobre aquilo que foi apagado e sobre as histórias que ainda precisam ser contadas.
Há também um custo nessa travessia. Jeferson lembrou a relação de Carlos Drummond de Andrade com conviver com os próprios poemas antes de terminá-los e falou sobre o modo como convive com os próprios textos antes de finalizar. Ao concluir uma obra, contou, muitas vezes sente-se “derrotado pelo próprio texto”.
A fala quebra uma imagem romantizada do escritor – escritores no geral – como alguém que simplesmente encontra as palavras certas. Para Jeferson, terminar um livro significa também se entregar a ele, ser confrontado por aquilo que escreveu e aceitar que, em algum momento, será preciso deixar a história seguir sozinha.
“Todo término de livro eu fico doente”
No encerramento da mesa, os três autores fizeram o movimento contrário ao que havia iniciado a conversa. Depois de falar sobre como as histórias chegam à literatura, voltaram aos próprios livros e deixaram que os textos falassem por si. Cada um leu um trecho de sua obra. Jeferson e Taiane levaram ao público as palavras que haviam servido de ponto de partida para uma conversa sobre mulheres, família, guerra, deslocamento, pertencimento e memória.
A mesa terminou, mas a ideia de travessia permaneceu. Atravessar é também voltar às próprias origens, entrar na história de alguém, descobrir um território pela palavra, enfrentar as ondas de um novo livro e recuperar experiências que ficaram fora dos relatos oficiais.
4º Fliparacatu
Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.
Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.
Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.
Serviço
4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br