
Fliparacatu: confiança e legado que reúnem pessoas
Afonso Borges
O 4º Fliparacatu terminou com números expressivos. Foram 32.500 pessoas em quatro dias, cerca de 5 mil livros vendidos e nenhuma atividade com menos de 250 pessoas na plateia. Tudo realizado e viabilizado através do patrocínio da Kinross, via Lei Rouanet.
Os números digitais ampliam essa dimensão. Nos últimos 30 dias, o Instagram do Fliparacatu registrou 2.447.025 visualizações, alcançou 515.347 pessoas e conquistou 4.106 novos seguidores líquidos. E há um dado especialmente revelador: 67,6% das visualizações vieram de pessoas que não seguiam o perfil.
Mas números, por maiores que sejam, contam apenas uma parte da história.
Um dia depois do encerramento do Fliparacatu, em 1º de setembro, recebi no Sempre Um Papo, no TCEMG, o cientista político Felipe Nunes, fundador da Quaest, ao lado do jornalista Jamil Chade. Em determinado momento da conversa, Felipe disse algo que me fez olhar de outra maneira para o que acabáramos de viver em Paracatu: o Brasil sofre de uma crise de desconfiança.
A frase ajuda a pensar o papel de um festival literário hoje.
Vivemos cercados por informação e, ao mesmo tempo, cada vez mais desconfiados dela. Nesse ambiente, escolher quem ocupa um palco para conversar com o público deixou de ser apenas uma decisão de programação. É também uma responsabilidade.
Foi isso que procuramos fazer no Fliparacatu.
Não buscamos convidados apenas porque são conhecidos ou acumulam seguidores. Procuramos escritores, jornalistas, pesquisadores, artistas e intelectuais que tenham algo consistente a dizer e trajetórias capazes de sustentar publicamente aquilo que dizem.
Talvez esteja aí uma das razões para o resultado do Fliparacatu. O público não foi apenas assistir a pessoas conhecidas. Foi ouvir conversas. E permaneceu para ouvi-las. Em uma época dominada pela disputa por segundos de atenção, isso significa alguma coisa.
A curadoria não pode ser medida apenas pela capacidade de atrair público. Precisa ser avaliada pela qualidade do que entrega.
Audiência sem conteúdo pode produzir um grande evento. Não necessariamente produz um grande festival literário.
E há algo que considero fundamental: o Fliparacatu não terminou no dia 29 de agosto. Todas as conversas foram gravadas e permanecem no YouTube @fliparacatu. Os cinco dias passam, as estruturas são desmontadas e os convidados voltam para suas cidades. O conteúdo fica.
Estamos formando, edição após edição, um acervo audiovisual de literatura e pensamento contemporâneo.
Por isso, quando olho para 32.500 pessoas, 5 mil livros vendidos, 2,4 milhões de visualizações, mais de meio milhão de pessoas alcançadas e 4.106 novos seguidores, não penso apenas em alcance.
Penso naquela frase de Felipe Nunes.
Se o Brasil vive uma crise de desconfiança, um festival cultural pode fazer uma escolha: tratar o público com respeito, escolher pessoas em quem vale a pena confiar e produzir conversas que continuem fazendo sentido depois que o palco é desmontado.
Talvez seja esse o número mais importante do Fliparacatu.
E como toda coisa perene, foge, e excede, a lógica das estatísticas.