
Em uma conversa permeada por reflexões sobre as feridas abertas na história e no cenário contemporâneo, os escritores Beatriz Bracher e Jamil Chade subiram ao palco do 4.º Fliparacatu na tarde deste sábado, 29 de agosto, para uma conversa mediada por Afonso Borges, presidente do Festival. O painel girou em torno da importância (e da necessidade) da escuta e do diálogo em momentos tensionados por conflitos geopolíticos e a polarização nacional.
Para início de conversa, Afonso falou sobre a interseção do trabalho de Beatriz e Jamil: ambos são adeptos do trabalho epistolar para desenvolver suas obras. Trata-se de uma forma estilística mas, acima de tudo, documental. A partir de então, cada escritor falou um pouco sobre seus trabalhos, destacando a importância da diplomacia e do intercâmbio de ideias. Jamil Chade enfatizou que o diálogo é o instrumento mais poderoso para a solução de problemas complexos, seja no âmbito das relações internacionais ou na convivência social cotidiana. O jornalista relembrou obras recentes para ilustrar como visões divergentes não precisam resultar em disputas destrutivas, mas sim em pontes para a compreensão mútua – a citar seu livro “A terra é redonda”, escrito em coautoria com Milly Lacombe.
Autora do romance “Guerra-I”, vencedora do Prêmio Machado de Assis de Melhor Romance (Biblioteca Nacional), Beatriz Bracher detalhou o processo de criação de sua obra, composta por fragmentos e cartas de combatentes e figuras da época da Guerra do Paraguai. A autora explicou que o recurso epistolar confere uma subjetividade particular ao texto, e que isso acontece por causa da dimensão cotidiana que era registrada nas cartas, assim como a rotina nos acampamentos e a saudade da família. A escolha por dar voz apenas a uma parte da narrativa (em primeira pessoa, a partir da perspectiva de quem escreveu as cartas), a obra constrói uma atmosfera intencionalmente claustrofóbica, pensada para retratar a desorientação vivenciada pelos soldados em campo de batalha. Beatriz ressaltou que, para além das justificativas territoriais e tecnológicas, a guerra permanece, em sua essência, como a destruição de vidas humanas.
Em outro momento, a autora retomou a fala sobre a trilogia “Guerra”, a qual tem uma separação clássica e cronológica, dividida em três partes. Em “Guerra – I”, lançado em 2026, a escritora fala sobre a invasão paraguaia, o acordo da Tríplice Aliança (Brasil, Uruguai e Argentina) contra o Paraguai. Já a segunda obra (finalizada, mas ainda em processo de edição) retrata o caminho dos Aliados, saindo do começo do Rio da Prata e chegando até Assunção, em território paraguaio. Em “Guerra – III”, o destaque é a Campanha da Cordilheira, quinta e última fase da ofensiva brasileira contra o Paraguai. Em tom de piada, Bracher diz estar “temerosa” sobre como fará para editar a última parte de sua trilogia.
Beatriz também falou sobre sua trajetória na escrita, que conta com seis romances e dois livros de contos. O início precisou de coragem para dar uma volta na vida profissional. Leitora assídua desde a infância, Beatriz cultivou a escrita na vida adulta de forma reservada, guardando para si seus primeiros contos por considerar o ofício algo distante, restrito a um “grupo seleto”. A virada de chave ocorreu durante sua atuação como co-fundadora e editora da Editora 34. Ao encarar a rotina de avaliação de originais em uma casa editorial enxuta, compreendeu como o mercado editorial funciona e percebeu que a hesitação em publicar era, no fundo, o receio de assumir publicamente a própria vocação. A constatação de que sua verdadeira realização não estava restrita à edição, mas na criação, motivou a decisão de se afastar do mercado editorial para dedicação exclusiva aos projetos pessoais. A partir daquele período focado inteiramente na escrita, o movimento autoral não parou mais.
Trazendo o debate para a atualidade, Jamil Chade abordou as transformações na ordem global e as disputas por hegemonia entre grandes potências, destacando o papel estratégico da América Latina nesse cenário. Outra obra de Chade foi trazida à tona neste momento: “Tomara que você seja deportado: Uma viagem pela distopia americana”. O livro, lançado em 2025, retrata a decadência social, a xenofobia e a crise dos direitos humanos nos Estados Unidos. Este momento da discussão se fez importante não apenas pelo excelente trabalho jornalístico de Jamil, mas também pelos acontecimentos recentes. Isso porque, no dia anterior à palestra, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um acordo que garante ao seu país o controle de mais de 65 bilhões de barris de petróleo em reservas da Venezuela, país que detém as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo.
A confluência dos trabalhos de Jamil Chade e Beatriz Bracher foi muito bem resumida pelo nome da mesa de debate que compuseram junto com Afonso Borges. Os “Passados Presentes” se fazem atuais pelas histórias que resgatam para serem contadas nos dias de hoje, sob novas perspectivas. Para que o passado não se repita no futuro, para que o futuro tenha mais diálogo.
4.º Fliparacatu
Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.
Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.
Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.
Serviço
4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br