
Em meio à pressa da vida contemporânea, autores defenderam o encontro como forma de cuidado e presença
Em uma época em que estar conectado nem sempre significa estar acompanhado, o encontro verdadeiro pode se tornar um gesto de resistência. Foi por esse caminho que Bruna Lombardi e Alexandre Coimbra Amaral conduziram a conversa na mesa “O Encontro na Literatura”, realizada neste sábado (29), no 4º Fliparacatu. Mediado pelo escritor Jeferson Tenório, a mesa fez um encontro entre literatura, cuidado e espiritualidade para pensar o que acontece quando, em meio à velocidade da vida contemporânea, ainda conseguimos parar para olhar o outro e a nós mesmos.
Para Alexandre, autor de Cuidar da Solidão até Virar Encontro, o psicólogo investiga uma solidão “sorrateira e escondida entre os corpos”, produzida também por uma vida que acelerou a ponto de exigir das pessoas uma velocidade impossível de sustentar. Os corpos, segundo Alexandre, passam a viver obcecados pela necessidade de performar, produzir e acompanhar o ritmo ao redor. Exaustos, acabam percebendo o outro como alguém “distante, inacessível ou até ameaçador”. Por isso, encontrar verdadeiramente alguém seria quase um movimento de contracultura.
Para Bruna, a possibilidade de encontro passa também pela capacidade de recuperar uma forma de olhar que pertence à infância. A escritora, atriz e diretora falou sobre o encantamento que acompanha a criança e que vai sendo perdido à medida que a vida adulta impõe suas exigências. O lúdico, nesse sentido, não seria apenas uma característica da infância, mas uma maneira de continuar percebendo o mundo como se fosse possível encontrá-lo pela primeira vez.
Da mesma maneira, Bruna falou sobre sua relação permanente com o mistério — algo que, para ela, não precisa necessariamente ser explicado. Há perguntas que permanecem sem resposta, pequenas coisas que não se deixam compreender completamente. É justamente nesse espaço, acredita, que também nasce a criação. Ainda, a autora lembrou que existem diferentes maneiras de escrever: há quem construa a obra com rigor e disciplina e há quem se lance ao processo de forma mais intuitiva, deixando a narrativa encontrar seus próprios caminhos. Em seu caso, a escrita aparece como uma relação quase orgânica com aquilo que a sensibiliza. “A gente é um instrumento”, afirmou.
O que a literatura abre dentro de nós
A infância também apareceu na memória de Alexandre. Natural de Araxá, no interior de Minas Gerais, o psicólogo se reconhece na imagem de um “menino sertanejo”, ainda deslumbrado com o mundo e com os encontros. Ao lembrar do primeiro livro que o marcou, O Menino Maluquinho, de Ziraldo, contou que havia naquela criança algo em que ele próprio conseguia se reconhecer. “Ziraldo abriu essa porta na minha vida (…) o livro pode ser essa entidade”, afirmou o mineiro.
A lembrança ajuda a explicar a relação que Alexandre estabelece hoje com a literatura. Seu processo de escrita, portanto, nasce da atenção àquilo que sensibiliza, especialmente ao que não é dito. Ele se define como um “caçador do outro”: alguém interessado nas perguntas que existem por trás das dores coletivas, dos conflitos cotidianos e dos desafios existenciais. Não há, para ele, uma experiência humana única e as dores dos brasileiros são atravessadas por realidades muito diferentes. E, justamente por isso, escrever se torna uma maneira de conversar.
A literatura como exercício de presença
Essa disposição para olhar o outro também atravessa Mulheres que Sentem os Espíritos, livro de Bruna que acompanha Lorena depois da morte da mãe. Diante da perda, a personagem precisa entrar em contato com uma parte desconhecida daquela mulher que havia sido seu abrigo absoluto e, nesse processo, também revisitar a própria história.
Bruna contou que a narrativa nasceu, em parte, dessa reflexão sobre presença. Depois de uma perda, o que permanece? Como olhar para alguém antes que seja tarde? Como perceber aquilo que existe nas pequenas coisas quando estamos tão acostumados a desviar os olhos? São perguntas que encontram eco na própria conversa da mesa. Se Alexandre fala de uma sociedade em que as pessoas estão próximas fisicamente, mas cada vez mais distantes umas das outras, Bruna propõe recuperar justamente a capacidade de prestar atenção. O outro está ali — mas é preciso estar presente para percebê-lo de verdade.
Entre o mistério de Bruna e a escuta de Alexandre, a mesa foi construindo uma defesa daquilo que parece pequeno diante das grandes urgências do mundo: conversar, observar, sentir, brincar, lembrar, cuidar. São movimentos discretos, mas que devolvem alguma humanidade a uma vida cada vez mais orientada pela pressa.