​O Fliparacatu, realizado entre 26 e 30 de agosto, ao comemorar os 70 anos do romance Grande Sertão, Veredas, fez jus à força da literatura de Guimarães Rosa. Sinalizou caminhos novos adentro dos nossos sertões simbólicos, as representações do Brasil, mergulhos profundos na alma brasileira. Alguém, em algum momento, acendeu uma luz, logo no primeiro dia: “O letramento organiza de tal forma o pensamento que desconfio que nos distancie da verdade”.  No último dia, o moçambicano Mia Couto, aclamado como um dos maiores escritores da língua portuguesa, disse mais, como quem puxa do novelo o fio esquecido. Contou que, para desapegar-se das ilusões e certezas, busca a linguagem selvagem, exercita o esquecimento do que sabe. Porque a vida se mostra, se revela, mas, depois, avança pelos domínios do mistério, o que o leva a concluir que nunca saberá o que ela é.

​Assim foi este Fliparacatu: em lugar das bandeiras de costume, novas fronteiras. O franco combate ao arcaico, a tentativa e erro de desenhar um mapa sonhado de avanços possíveis, abrindo novas picadas. O caminhar e não a alucinação da chegada em algum lugar do tempo futuro.

​Do poder da tração da arte indignada de Paulo Scot – “o direito brasileiro não se desenvolverá se não consultar a sabedoria negra e indígena” – brotou o encantamento com o poder transformador da literatura, em suas diversas trincheiras: “Eu nada mais tenho a dizer nesta Mesa. Estou aqui para aprender com o Jairo Marques”. De sua cadeira de rodas, Marques, jornalista e colunista da Folha de S. Paulo, apresentava o seu Malacabado – uma janela com vista para a realidade de todos os brasileiros invisíveis, fechados dentro de casa, silenciados, porque não conseguem sequer circular pelas ruas de suas cidades. Antes de se fazerem conhecidos, acabam reduzidos – e excluídos – aseu “defeito” de corpo. Como se não houvesse pessoa, apenas pele e ossos. “É muito cruel que pessoas não possam sair de casa. Se não saio de casa, as pessoas não veem a minha dor”. Ainda do mirante aberto por Marques é possível se espantar com o óbvio como se fosse novidade: “Escritores com deficiência são muito poucos”.

​Em outro momento, em outro dia, mas palmilhando a beleza dessa trilha de ensinar a nossos olhos novos olhares, Noemi Jeff, do belo “O que ela sussurra”, sublinha outro sentido: os tempos verbais pretérito perfeito e pretérito mais que perfeito, mais do que indicar ações do passado, querem dizer algo mais. As denominações proveem do latim “perfectum”, que significa concluído, terminado, acabado. Tudo, portanto, que é concluído é perfeito. Nós, não. Como aponta Riobaldo Tatarana, “… as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas…”. Ninguém, por assim dizer, é “malacabado”, mas inacabados somos todos. “Malacabada” mesmo é a ignorância, em definitivo.

​No palco do Fliparacatu, teve aula da pós-doutora em antropologia e professoraespecialista em Rosa, Monica Meyer. Para facilitar nosso aprendizado, transformou a linguagem dos livros que estudou em cantos de pássaros do Grande Sertão. Muitodidática, imitou cada um, depois disse uma frase e sublinhou: “A nossa escuta da natureza é analfabética”. Como foi do costume daquele Fliparacatu, dois dias depois Mia Couto terminou a aula de Mônica, sem ensaio ou combinação. Disse: “A infância só começa quando aparecem os pássaros”. Com sua matemática, nos ajudaram, os dois,a abrir as gaiolas de cada um.

​Não há como ver Bruna Lombardi e não se lembrar de Diadorim. Os dois estiveram lá, sob o olhar protetor de Carlos Alberto Riccelli. “Aqui é tudo ou nada. Nonada. Se deixar para trás qualquer pedaço meu, não sobrevivo. Me concentro no que tenho”, escreveu Bruna, ou foi Diadorim? Também não sei se foi em resposta a essa questão da soma dos pedaços, sem subtração, mas na última Mesa do Fliparacatu, Mia – ele, novamente – leu um trecho do livro que está escrevendo. A mulher pediu ao marido que fosse buscar sua irmã para ajudá-la a cuidar do filho deles. Mulher, nosso filho está morto!, espantou-se o pai. Filho morto dá muito mais trabalho, concluiu a mãe.

​Miriam Leitão, jornalista, escritora, mulher dedicada, todo tempo que tem, a nos ajudar a tomar conta do nosso território de viver, contou que está fazendo nova reportagem sobre o sertão. Em Sagarana, entrevistou Sô Argemiro, octogenárioprodutor de baru. Ele disse, lá pelas tantas, como quem confessa uma dor assustadora, que anda muito preocupado porque o sertão está acabando. A voz ficou embargada, assustou-se com o que tinha declarado, a tempo de se corrigir: “Mas o sertão está dentro do meu coração”. Miriam gravou em imagem e som a emoção saindo pela boca do sertanejo. Miriam traz a alma brasileira misturada em seus gestos.

​Acho que sempre que alguém pergunta pelo Sergio Abranches, cientista social, jornalista, escritor, ambientalista – e, desconfio, yogue também -, escuta que ele está mergulhado em tal assunto. Desta vez, trouxe na algibeira um livro novo e dois em véspera. São estes A Terceira Margem do Ipiranga, ensaio sobre como a mentalidade patriarcal e escravocrata nos atrasa o passo até hoje; e a edição revista e ampliada do seu clássico Presidencialismo de Coalizão. Aquele é o romance de ficção científica “A Franja do Fim do Mundo”, história de uma das poucas cidades sobreviventes ao colapso climático, habitada por fugitivos de várias partes do planeta e dominada pela milícia dos super-ricos, encastelados em um bunker. “Que futuro terá esta cidade perdida, última fronteira da humanidade na franja do fim do mundo?”, provoca a orelha do livro.

​Jamil Chade, daqui a pouco, saberá responder. Esse jornalista e escritor incansável, andarilho mundo afora, retratista dos acontecimentos em gênese, intérprete dos sinais da senilidade civilizatória, soldado a serviço das nossas humanidades, parece que sentiu-se pautado pelas franjas do Abranches e lançou o desafio: que cada um faça da instituição que representa, seja a escola ou a barraca de feira, uma trincheira avançada de defesa da democracia. Jamil já viu, mil vezes, os riscos que nos cercam.

​Mas antes que eu termine, relato o que deixei especialmente para o fim: dava para sentir o vento dos aplausos, como disse José Saramago certa vez no Palco do Palácio das Artes, em agradecimento e reconhecimento a Afonso Borges, pelo seu trabalho de mais de 40 anos em prol da literatura brasileira e de língua portuguesa. Gente de pé, aplaudindo com intensidade e sem pressa, esse guerreiro da cultura, mestre em generosidade. Viva Afonso!