
Mia Couto, Míriam Leitão, Jeferson Tenório, Bruna Lombardi, Jamil Chade, Eliana Alves Cruz e dezenas de outros convidados estão no acervo audiovisual do festival, que reuniu 32.500 pessoas em Paracatu
O 4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu) terminou no dia 30 de agosto, mas sua programação continua disponível para o público de todo o Brasil. Os debates realizados durante os cinco dias de festival foram transmitidos ao vivo, gravados e disponibilizados gratuitamente no canal youtube.com/@fliparacatu. São conversas com alguns dos principais nomes da literatura brasileira e internacional, além de jornalistas, artistas e pesquisadores que discutiram os grandes temas da atualidade. Para quem esteve em Paracatu, é a oportunidade de rever os encontros. Para quem não pôde participar, o festival pode começar agora.
O 4º Fliparacatu teve patrocínio master da Kinross, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, patrocínio da Caixa e apoio cultural da Prefeitura de Paracatu, da Academia de Letras do Noroeste de Minas e do Sebrae. Com idealização e presidência de Afonso Borges, a curadoria reuniu Sérgio Abranches e Calila das Mercês, responsáveis pela programação nacional e internacional, Daniela Prado, pela programação local, e Rafael Nolli, pelas atividades infantojuvenis. Todas as mesas contaram com transmissão ao vivo e interpretação em Libras.
Realizado entre 26 e 30 de agosto de 2026, no Centro Histórico de Paracatu, o festival recebeu 32.500 pessoas e promoveu 68 atividades. A programação reuniu 28 mesas nacionais e internacionais, 11 mesas locais, 17 encontros infantojuvenis, oito oficinas e quatro apresentações musicais. A livraria comercializou aproximadamente cinco mil exemplares, de cerca de 1.500 títulos.
Sob o tema “Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo”, a edição homenageou João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e Milton Santos, no centenário de seu nascimento. Os dois intelectuais ofereceram os pontos de partida para conversas que ultrapassaram o universo literário e alcançaram questões fundamentais do Brasil contemporâneo.
Mia Couto e a literatura como experiência de vida
Entre os encontros que merecem ser vistos está a conversa de Mia Couto com Noemi Jaffe, mediada por Jeferson Tenório, na sexta-feira, 28 de agosto. Com o título “O Papel da Literatura em um Mundo em Transe”, a mesa reuniu dois escritores que trabalham a linguagem de maneira singular.
O autor moçambicano falou sobre sua formação literária, recordou histórias ouvidas na infância e apresentou ao público o primeiro capítulo de um romance ainda inédito, cuja narrativa aborda a exploração de jovens em minas abandonadas na África do Sul.
Noemi Jaffe leu trechos de Te Dou Minha Palavra, livro em que aborda o envelhecimento, a experiência pessoal e as lembranças familiares. A conversa aproximou diferentes maneiras de compreender a literatura e mostrou como a experiência cotidiana pode se transformar em criação artística.
Mia Couto voltou ao palco no sábado, 29 de agosto, para um dos encontros centrais do festival. Ao lado de Míriam Leitão, com mediação de Jamil Chade, participou da mesa “Grande Sertão: Veredas – 70 anos: A Travessia Continua”.
O debate examinou a permanência da obra de Guimarães Rosa e a importância da linguagem na construção de nossa compreensão do mundo. A conversa também estabeleceu relações com o pensamento de Milton Santos sobre território e lugar.
Ao final, o compositor Celso Adolfo apresentou canções inspiradas no universo roseano, acompanhado em um momento por Jamil Chade na flauta transversal.
A literatura diante dos conflitos contemporâneos
Outro conjunto de conversas permite compreender como o Fliparacatu aproximou a criação literária das questões sociais e políticas do presente.
Na abertura da programação nacional, Jeferson Tenório e Taiane Santi Martins participaram de “Escritas e Travessias”, com mediação de Calila das Mercês. O encontro discutiu as relações entre a experiência pessoal, os deslocamentos e a formação de narrativas capazes de ampliar nossa percepção do Brasil.
Sérgio Abranches e Alê Santos, mediados por Jamil Chade, participaram de “O Futurismo”, conversa sobre ficção científica, imaginação política e possibilidades de futuro.
O tema ganhou outros desdobramentos ao longo do festival. Alê Santos e Sandra Menezes, em diálogo com Sérgio Abranches, discutiram o afrofuturismo e a ficção especulativa como maneiras de revisitar o passado e imaginar outras realidades.
Paulliny Tort também conversou com Sérgio Abranches sobre a criação de futuros possíveis e a capacidade da ficção de investigar os dilemas do presente.
Em outra mesa, Paulo Scott e Jeovanna Vieira abordaram questões de raça e identidade. Já Jairo Marques e Paulo Scott, mediados por Ricardo Ramos Filho, participaram de “Por Mundos Acessíveis”, encontro dedicado à acessibilidade e às barreiras que ainda limitam a participação plena de milhões de brasileiros na sociedade.
São conversas que mostram como a literatura pode dialogar com assuntos que aparecem diariamente no noticiário, mas que ganham outra profundidade quando examinados por escritores e pensadores.
O amor, o medo e as relações humanas
O Fliparacatu também abriu espaço para questões próximas da experiência cotidiana.
Bruna Lombardi e Alexandre Coimbra Amaral conversaram sobre a solidão e a importância dos encontros humanos, com mediação de Jeferson Tenório. O diálogo aproximou literatura, relações afetivas e os desafios de convivência em uma sociedade marcada pela aceleração do tempo.
Renato Noguera e Geni Núñez participaram de “O Amor e o Medo em um Mundo em Crise”, refletindo sobre sentimentos que atravessam as relações contemporâneas e sobre as possibilidades de construir outras formas de convivência.
Cristóvão Tezza e Natalia Timerman discutiram as relações familiares e os territórios da intimidade, enquanto Eliana Alves Cruz e Cristóvão Tezza, mediados por Geni Núñez, examinaram as fronteiras entre ficção e realidade.
A diversidade desses encontros oferece ao público a possibilidade de escolher conversas de acordo com seus interesses, sem a necessidade de acompanhar a programação na ordem em que aconteceu.
Milton Santos, Guimarães Rosa e o Brasil que se reconhece no território
O centenário de Milton Santos e os 70 anos de Grande Sertão: Veredas atravessaram a programação.
Nina Santos, neta do geógrafo, participou de uma conversa com Alê Santos, mediada por Marcelino Freire, aproximando o pensamento de Milton Santos das questões contemporâneas.
Ítalo Moriconi e Mônica Meyer participaram de “Palavra Mundo”, encontro dedicado às relações entre a obra de Guimarães Rosa, a natureza e o território.
Bruna Lombardi e Jeferson Tenório, com mediação de Jamil Chade, discutiram a permanência de Grande Sertão: Veredas e a atualidade das questões filosóficas presentes no romance.
A programação regional também contribuiu para essa reflexão. Mesas dedicadas a Afonso Arinos, à influência de Guimarães Rosa na música de Paracatu e às relações entre regionalismo e história local mostraram a importância de reconhecer a produção cultural da própria cidade.
Em “Regionalismo e Memória: Guimarães Rosa e Afonso Arinos”, Vandeir José da Silva, Telma Borges e Helen Ulhôa Pimentel aproximaram os dois escritores a partir de suas relações com o sertão.
O encontro oferece uma oportunidade especialmente interessante para quem deseja conhecer a importância de Afonso Arinos, escritor nascido em Paracatu e autor de Pelo Sertão.
A produção literária de Paracatu e da região
A programação local teve espaço próprio no festival, reunindo escritores e pesquisadores da região em conversas sobre a produção literária e suas relações com a vida cultural da cidade.
Entre os temas estiveram “O Sertão Mineiro de Afonso Arinos”, “A Palavra como Travessia”, “A Escrita como Território Afetivo” e “Ditos Populares e Autoras Paracatuenses”.
Esses encontros ampliaram a presença dos autores locais na programação e ofereceram ao público a oportunidade de conhecer obras, pesquisas e experiências que muitas vezes circulam fora dos grandes centros editoriais.
A participação regional também se manifestou nas sessões de autógrafos, nas atividades de poesia falada e nas apresentações artísticas que ocuparam diferentes espaços do Centro Histórico.
Crianças e jovens também fizeram parte do festival
O 4º Fliparacatu desenvolveu uma programação dedicada ao público infantojuvenil, com encontros literários, contações de histórias, oficinas e atividades educativas.
Um dos destaques foi a participação de Gabriel Dearo e Manu Digilio, criadores da série As Aventuras de Mike, que encontraram um auditório lotado de crianças e adolescentes.
Míriam Leitão também participou de um encontro com o público infantojuvenil, mediado por Alessandra Roscoe, ampliando o contato dos jovens leitores com autores que transitam entre diferentes gêneros literários.
O Prêmio de Redação e Desenho, realizado em parceria com a rede escolar de Paracatu, mobilizou estudantes antes mesmo da abertura do festival. Inspirados pelo tema “Meu Lugar no Mundo”, alunos de diferentes etapas de ensino produziram trabalhos que aproximaram a literatura de suas próprias experiências.
A programação infantojuvenil, as oficinas e as atividades artísticas reforçaram a presença das escolas e das famílias no festival.
Um acervo que permanece disponível
A quarta edição do Fliparacatu também reuniu apresentações musicais e manifestações artísticas que ampliaram o diálogo entre literatura e outras linguagens.
A Orquestra Ouro Preto integrou a programação, assim como os espetáculos inspirados na obra de Guimarães Rosa, entre eles “Travessia Roseana”, com Titane e Makely, e a apresentação de Celso Adolfo.
As exposições “O Sertão de Portinari”, realizada em parceria com o Projeto Portinari, e “Meu Lugar no Mundo”, do Grupo Matizes Dumont, acrescentaram às homenagens literárias a presença das artes visuais.
Parte dessas experiências dependeu da visita presencial. Já as conversas transmitidas e gravadas permitem que o conteúdo intelectual do festival continue circulando.
Esse é um dos principais legados do Fliparacatu. Ao disponibilizar gratuitamente suas mesas no YouTube, o festival transforma encontros realizados durante cinco dias em um acervo que pode ser utilizado por professores, estudantes, pesquisadores e leitores de qualquer lugar.
Não é necessário ter participado do evento para acompanhar as discussões. Também não há inscrição ou cobrança para assistir às gravações.
O público pode começar pelos encontros com Mia Couto, Míriam Leitão e Jamil Chade, conhecer as discussões sobre afrofuturismo com Alê Santos e Sandra Menezes, acompanhar as conversas de Bruna Lombardi e Alexandre Coimbra Amaral ou descobrir a produção literária de Paracatu.
Há muitos caminhos possíveis dentro da programação.
O 4º Fliparacatu terminou em agosto. Mas suas conversas continuam disponíveis, esperando novos espectadores.