Por Sérgio Abranches

Existe uma literatura invisível no Brasil. Eu a descobri como curador de quatro festivais literários, Fliaraxá, Fliparacatu, Flitabira e Flipetrópolis. Seus autores são chamados “locais”, porque não foram publicados por editoras do grande centro editorial que está no eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Nesses quatro festivais, por iniciativa do organizador, Afonso Borges, basta um autor se inscrever, terá um flyer e poderá fazer lançamento de seu livro no mesmo local que os autores convidados. Aparecem dezenas. Alguns de fora da cidade. Vi filas de bom tamanho nesses lançamentos. Há títulos bem criativos, romances, contos, crônicas e poesia. Certamente há talentos entre esses autores “locais”.

Muitos escritores de nome, hoje, foram um dia “locais”. A invisibilidade também não se restringe a escritores do “interior”. No Eixo SP/RJ há muitos invisíveis também, desprezados pelas grandes editoras, pelos poucos espaços de resenhas e divulgação de livros na imprensa e pela própria comunidade de escritores. Até serem “descobertos”.

O estímulo à escrita vem de quatro desenvolvimentos significativos no mundo literário: a proliferação de festivais, festas e feiras do livro pelo país; cursos, oficinas e similares de “escrita criativa” também se espalham por todo o pais; os clubes do livro que estimulam a leitura e terminam por encorajar leitores a se tornarem autores estão se multiplicando, presenciais e online; e os “influenciadores” que se dedicam a falar de livros no Instagram, TikTok e YouTube.

Especialmente os festivais, os clubes do livro e os “influenciadores” são canais muito poderosos de incentivo à leitura e que terminam por despertar nas pessoas o desejo de criar suas próprias estórias. Ou lhes dão coragem para tirar seus manuscritos da gaveta — eu, sei, hoje seria tirar seus arquivos da nuvem ou do HD — e levá-los à autopublicação ou a editoras locais que publicam por conta própria ou são pagas para publicar. Os treinamentos em escrita criativa ajudam a apurar a narrativa, o estilo, enredo e podem revelar excelentes autores ao final.

A autopublicação no Kindle da Amazon é um caso à parte. Também é um canal poderoso, mas criou um veio próprio, de onde os autores não sentem necessidade de sair para o papel. Agora a própria Amazon premia os melhores com a publicação em papel. Esse universo do ebook proprietário tem seus próprios prêmios e produz seus próprios best-sellers, que terminam cortejados pelas grandes editoras. Há escritores de muito talento que preferiram ficar exclusivamente nesse circuito do livro digital. Alguns deles chegaram à Amazon, após serem rejeitados pelas editoras do eixo.

Os lançamentos como dos festivais que mencionei podem vir a ser um canal para sair da invisibilidade. Eles mobilizam a população local, mas ainda não chegaram a chamar a atenção de leitores e editores “de fora”.

O fato é que o número de leitores tem aumentado. Os eventos literários — festivais, festas, feiras e as bienais — lotam e nesse público há uma faixa jovem muito significativa. O número de autores também tem aumentado e esse ganho de escala terminará por rebater na economia do livro.