Festival será realizado de 25 a 29 de agosto de 2027 e terá como referência a obra de Afonso Arinos, escritor nascido em Paracatu que ajudou a transformar o sertão em um dos grandes territórios da literatura brasileira

O 5º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu), que será realizado de 25 a 29 de agosto de 2027, no Centro Histórico da cidade, terá como tema “Paracatu: a terra onde nasceu a literatura brasileira”. A proposta é revisitar a contribuição de Afonso Arinos (1868–1916), nascido em Paracatu, para a formação da literatura nacional. Autor de Pelo Sertão e Os Jagunços, ele foi um dos escritores que contribuíram para colocar o interior do Brasil no centro da narrativa literária. A edição terá como eixo conceitual “Afonso Arinos e a invenção literária do Brasil”, estabelecendo relações entre sua obra e a de autores como Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Guimarães Rosa.

O 5º Fliparacatu tem o patrocínio master da Kinross, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e conta com a realização da Associação Cultural Sempre um Papo e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas.  O festival é gratuito e reúne, durante cinco dias, escritores, pesquisadores, artistas e leitores em uma programação dedicada à literatura e ao pensamento contemporâneo.

O tema de 2027 parte de uma provocação: a literatura brasileira não nasceu em um único lugar, mas Paracatu ocupa uma posição importante na história de sua formação. Foi nessa cidade do Noroeste de Minas Gerais que nasceu Afonso Arinos de Melo Franco, escritor que ajudou a ampliar a presença do sertão na literatura nacional, incorporando à ficção personagens, histórias e formas de expressão do interior brasileiro.

Publicado em 1898, Pelo Sertão é considerado uma das obras importantes do regionalismo brasileiro. O livro apresenta um universo marcado pela vida rural, pelas relações humanas e pelos costumes do interior mineiro. Em suas narrativas, Afonso Arinos transforma a experiência sertaneja em matéria literária, dando visibilidade a personagens e modos de vida que raramente ocupavam o centro da produção cultural do país.

No mesmo ano, o escritor publicou Os Jagunços, romance sobre a Guerra de Canudos que havia começado a circular em folhetim em 1897, sob o pseudônimo de Olívio de Barros. A obra antecedeu em quatro anos a publicação de Os Sertões, de Euclides da Cunha, um dos livros fundamentais da literatura brasileira. Essa precedência histórica permite reexaminar a participação de Afonso Arinos na construção das narrativas sobre o sertão e os conflitos que marcaram o Brasil no final do século XIX.

De Afonso Arinos a Guimarães Rosa

Afonso Arinos é frequentemente apontado como um dos precursores do regionalismo brasileiro. Sua importância, entretanto, ultrapassa essa classificação. O escritor pertence a uma geração que procurou reconhecer o país em suas próprias formas de expressão, valorizando a cultura popular e a experiência de populações distantes dos grandes centros urbanos.

Sua obra permite estabelecer aproximações com o projeto de investigação da cultura brasileira desenvolvido posteriormente por Mário de Andrade e com a reinvenção da linguagem sertaneja realizada por Guimarães Rosa. São escritores de épocas e projetos literários diferentes, mas que participaram, cada um à sua maneira, da ampliação das possibilidades de representação do Brasil.

Em Pelo Sertão, o interior aparece como um universo dotado de linguagem própria. Os personagens carregam experiências e maneiras de compreender o mundo que passam a integrar a narrativa literária. Essa valorização da oralidade e dos costumes regionais contribuiu para um processo de transformação que encontraria novas expressões ao longo do século XX.

A relação entre Afonso Arinos e Guimarães Rosa será um dos caminhos de investigação propostos pelo Fliparacatu de 2027. O festival pretende discutir como o sertão se tornou um dos grandes espaços de criação da literatura brasileira e de que maneira a linguagem popular passou a participar da construção de obras de alcance universal.

Uma provocação sobre as origens da literatura brasileira

Ao afirmar que Paracatu é a terra onde nasceu a literatura brasileira, o Fliparacatu propõe uma reflexão sobre a participação do interior na formação da cultura nacional.

A afirmação tem caráter deliberadamente provocador. Não pretende estabelecer uma origem cronológica ou geográfica exclusiva para a literatura brasileira, cuja história envolve diferentes tradições culturais e atravessa séculos. O objetivo é chamar a atenção para a contribuição de escritores que ajudaram a transformar a experiência do interior em uma das fontes da criação literária nacional.

Nesse contexto, Paracatu ganha protagonismo como cidade natal de um autor cuja obra merece ser mais conhecida e estudada. A proposta é recuperar a importância de Afonso Arinos e ampliar o debate sobre os escritores que contribuíram para a formação da imaginação literária brasileira.

O tema também permitirá aproximar essa tradição de autores contemporâneos que continuam ampliando as maneiras de contar o país. A presença de escritores indígenas, quilombolas e representantes de diferentes regiões brasileiras poderá contribuir para uma discussão sobre quem conta as histórias do Brasil e quais experiências ainda precisam conquistar maior espaço na literatura.

Afonso Arinos será o centro de uma investigação literária

A programação do 5º Fliparacatu deverá reunir debates sobre a obra de Afonso Arinos e sua relação com a história da literatura brasileira. Entre os eixos em desenvolvimento estão as aproximações entre Os Jagunços e Os Sertões, a presença da oralidade na ficção regionalista e a trajetória da linguagem sertaneja até Guimarães Rosa.

Também está prevista, como proposta curatorial, uma exposição dedicada à vida e à obra de Afonso Arinos, com documentos históricos, reproduções de primeiras edições, fotografias e materiais de arquivo, conforme a disponibilidade dos acervos e as parcerias institucionais que vierem a ser estabelecidas.

A iniciativa pretende estimular novas leituras de Pelo Sertão e Os Jagunços, aproximando o escritor de leitores contemporâneos e ampliando o conhecimento sobre sua contribuição à literatura brasileira.

O projeto poderá ter continuidade em 2028, quando Pelo Sertão completará 130 anos de publicação. A proximidade da efeméride abre a possibilidade de desenvolver pesquisas, debates e iniciativas editoriais dedicadas à valorização da obra de Afonso Arinos.

Todas as conversas do festival serão gravadas e disponibilizadas no canal do Fliparacatu no YouTube, contribuindo para a formação de um acervo audiovisual sobre literatura e pensamento brasileiro.

Paracatu no centro da história literária do Brasil

Com o tema de 2027, o Fliparacatu pretende ampliar o reconhecimento da cidade como um espaço de produção e reflexão cultural, tomando a trajetória de Afonso Arinos como ponto de partida.

A literatura brasileira não possui uma única origem. Sua formação reúne diferentes tradições, experiências e territórios. Mas Paracatu deu ao país um escritor que ajudou a transformar o sertão em literatura nacional.

Ao propor uma releitura de Afonso Arinos, o 5º Fliparacatu quer contribuir para que sua obra volte a ocupar um lugar de destaque no debate literário brasileiro.

Porque, quando o Brasil começou a descobrir literariamente seu próprio interior, havia um escritor de Paracatu ajudando a contar essa história.

Observação editorial: mantive o crédito da Kinross no segundo parágrafo, conforme o histórico de patrocínio do festival. Antes da publicação, é importante confirmar se o patrocínio master está formalmente assegurado para a edição de 2027.