Por Letícia Finamore

Eliana Alves Cruz, Cristóvão Tezza e Geni Núñez reuniram um grande público na noite de sábado, 30 de agosto, no 4.º Fliparacatu, para conversar sobre os caminhos da criação literária, os impactos das estruturas sociais na ficção e as diferentes formas de construir pertencimento por meio da palavra. A sessão foi aberta com audiodescrição e a apresentação dos autores, reforçando a literatura como um espaço de diálogo e acolhimento das diferenças. Ao longo do encontro, as experiências pessoais e profissionais dos escritores se entrelaçaram a reflexões sobre memória, sociedade e os processos que culminam em narrativas.

Eliana Alves Cruz compartilhou aspectos do processo de construção de “Meridiana”, livro lançado em 2025 e aborda as complexidades das relações familiares a partir de múltiplas perspectivas. A escritora também destacou a influência do jornalismo em sua formação e defendeu a necessidade de superar os estigmas que reduzem obras literárias complexas a uma única temática.

Para a autora, um dos grandes desafios do romance está na construção de personagens capazes de revelar as contradições e a complexidade da experiência humana. “A gente precisa ultrapassar essa barreira dos rótulos para que consiga enxergar a arquitetura dos textos, a construção e o arco dos personagens”, afirmou. Eliana também ressaltou a importância de tensionar concepções tradicionais de masculinidade e autoritarismo, utilizando os afetos e a escrita como caminhos possíveis para esse debate.

Cristóvão Tezza, por sua vez, refletiu sobre as transformações do cenário literário brasileiro ao longo das últimas décadas e sobre a influência de suas experiências no teatro, na universidade e no campo da linguística. Ao falar sobre obras de caráter autobiográfico e memorialístico, como “O Filho Eterno” e “Visita ao Pai”, o escritor destacou a importância da distância temporal e emocional para que a memória pessoal possa se transformar em uma composição literária. O autor também abordou as mudanças na forma como a literatura é recebida e compreendida em diferentes contextos históricos e sociais. “A literatura não é um objeto fixo ou imóvel no tempo. Cada era, cada geografia tem uma concepção de literatura e responde a determinadas demandas. A ficção é uma questão de artesanato”, afirmou.

Em seguida, o público conferiu a roda de conversa “Grande Sertão: Veredas – 70 anos: A Travessia Continua”, com Mia Couto, Míriam Leitão e Jamil Chade.

Confira a mesa “Ficção e Realidade”, com Eliana Alves Cruz, Cristóvão Tezza e mediação de Geni Núñez, na íntegra:

 

 

4.º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.

Serviço

4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br