
Com mediação de Jamil Chade, autores revisitam a força de Grande Sertão: Veredas e mostram, 70 anos depois, como a obra de Guimarães Rosa continua atravessando leitores, escritores e gerações
Bruna Lombardi, Jeferson Tenório e Jamil Chade se encontraram na mesa “O pulso agreste do mistério”, realizada nesta sexta-feira (28), no 4.º Fliparacatu. Mediada por Chade, a conversa partiu de Grande Sertão: Veredas para discutir a permanência de uma obra que, sete décadas depois de publicada, continua produzindo perguntas sobre o Brasil, a linguagem, a ética, o amor, o bem, o mal e aquilo que permanece inexplicável na experiência humana.
Bruna chega a essa história por um caminho particularmente íntimo. Em 1985, durante as gravações da adaptação de Grande Sertão: Veredas para a televisão, ela atravessou o sertão mineiro, goiano e baiano para interpretar Diadorim, personagem de Rosa. Quarenta anos depois daquela experiência, as anotações que escreveu durante as filmagens deram origem ao Diário do Grande Sertão.
Escrever para não enlouquecer
Jamil começou a conversa perguntando a Bruna sobre aquela passagem pelo sertão que, décadas depois, se transformaria em livro A resposta veio antes mesmo de qualquer elaboração literária: Bruna escreveu porque precisava: “Eu escrevi o Diário para não enlouquecer”, contou. Para a atriz, escrever sempre foi uma maneira de organizar aquilo que não cabia imediatamente dentro dela, como uma tentativa de compreender. “A minha ferramenta desde criança foi a escrita”, afirmou.
A frase ajuda a entender Diário do Grande Sertão não apenas como um registro de bastidores de uma produção histórica da televisão brasileira, mas como o vestígio de uma experiência que exigiu da atriz uma forma de sobrevivência. Para Bruna, escrever sempre esteve ligado à tentativa de extrair algum sentido daquilo que acontece. Lombardi comentou sobre precisar se “desintegrar” algumas vezes ao longo da vida e encontrar na escrita uma maneira de se reconstruir.
Entrar no sertão
Ao falar sobre Grande Sertão: Veredas, Jeferson Tenório lembrou a força dos grandes clássicos brasileiros para colocar o país diante de si mesmo. Citou, ao lado de Rosa, Macunaíma e Capitães da Areia, obras que, cada uma a seu modo, também ajudaram a construir imagens profundas e contraditórias do Brasil.
Mas, ao pensar especificamente no romance de Rosa, Tenório chamou atenção para uma particularidade: o sertão não aparece ali apenas como cenário. Ele é uma forma de pensar. O escritor observou que existe na obra uma espécie de ética dos jagunços e sertanejos. Mesmo em meio à violência, às disputas e às guerras, há códigos, relações de respeito e uma determinada ideia de dignidade.
Foi nesse ponto que surgiu:
Quem tem que pedir licença para entrar no sertão são os intelectuais
A fala ganha mais peso quando colocada ao lado da experiência de Bruna. Ela não chegou ao sertão apenas para interpretá-lo, mas viveu ali durante as gravações, conheceu pessoas, percorreu estradas, observou paisagens e mergulhou naquele universo enquanto também tentava compreender a obra que estava levando para a televisão. Bruna contou que já havia lido Grande Sertão: Veredas diversas vezes, mas que foi a experiência concreta de estar naquele território que mudou sua relação com o livro. “Quando você ingere na veia esse sertão”, disse. Dessa forma, Bruna comenta que Diadorim não é apenas uma personagem de um papel interpretado há quatro décadas. É também uma síntese da experiência que ela descreveu ao longo da conversa e fala, com deslumbramento, que ainda sente muita felicidade quando retorna ao sertão e como sua vida foi transformada por aquela passagem.
Um livro que ainda pergunta
Ao longo da mesa, Bruna e Jeferson revisitaram passagens de Grande Sertão: Veredas, recuperando frases e personagens que continuam provocando leitores. Setenta anos depois da publicação, a obra permanece porque não se encerra nas respostas. Há em Rosa, para o trio, uma mistura de filosofia e experiência, de violência e delicadeza, de realidade e mistério. E talvez seja justamente essa impossibilidade de reduzir o romance a uma única interpretação que explique parte de sua permanência.
Jeferson lembrou que o livro começa com um travessão e termina na travessia, e a observação parece resumir não apenas a estrutura da obra, mas também o modo como ela continua sendo lida: como uma experiência em movimento. Para o escritor, entre tantos ensinamentos deixados por Rosa, ainda existe a possibilidade de acreditar em valores que parecem cada vez mais difíceis de preservar: “Ainda é possível ter amor, respeito e solidariedade”.
Bruna concordou que cada história atravessa cada pessoa de uma maneira diferente. Um livro não produz necessariamente a mesma experiência em todos os leitores. E é justamente aí que ela encontra uma das forças da criação. A atriz se declarou devota do mistério. Para ela, existe alguma coisa na criação artística que não se explica completamente — algo que conecta o indivíduo a uma dimensão maior do que ele próprio.
Talvez seja esse o “mistério” do título da mesa.
A certa altura, Bruna definiu Guimarães Rosa como “um homem de alma delicada”. A frase poderia parecer inesperada diante do universo agreste, violento e muitas vezes brutal de Grande Sertão: Veredas. Mas talvez seja justamente essa aparente contradição que ajude a compreender a obra.
A própria Bruna leva essa relação com o mistério para outra produção literária. Ao falar de” Mulheres que Sentem os Espíritos”, seu romance mais recente, ela apresentou uma narrativa atravessada pelo luto, pelas crises de identidade e pela redescoberta de raízes espirituais após a morte da mãe. Novamente, aparecem as perguntas sobre aquilo que herdamos, aquilo que não conseguimos explicar e aquilo que permanece depois que alguém parte.
Ao fim da conversa, fica difícil pensar em Grande Sertão: Veredas apenas como um livro publicado há 70 anos. Para Jeferson, ele continua oferecendo uma maneira de olhar para o Brasil em sua profundidade. Para Bruna, é também uma experiência vivida, um território atravessado e uma personagem que permaneceu. Para cada leitor, como ela própria observou, a travessia acontece de um jeito diferente. Talvez seja por isso que o sertão de Rosa continue tão presente.