“‘As instituições somos nós’: Jamil Chade une jornalismo e literatura pela democracia”, por Luiza Barufi

Diante do avanço autoritário e da proximidade do período eleitoral, correspondente internacional defende a tomada cívica dos espaços públicos

Texto publicado originalmente no portal Amado Mundo – clique aqui para acessar

“As instituições somos nós.” A premissa defendida pelo jornalista e correspondente internacional Jamil Chade propõe no festival de literatura um chamado para a sociedade civil às vésperas de mais um período de decisões eleitorais. Para Chade, a sustentação de um regime democrático não deve depender exclusivamente de tribunais ou gabinetes oficiais, mas da apropriação cotidiana e intransigente dos espaços onde a cidadania pulsa: a literatura, a imprensa, as escolas, os coletivos e as feiras de rua.

A convocação pública foi formulada durante a quarta edição do Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu), no fim de agosto, mas vem sendo articulada e defendida por Chade em todos os espaços que encontra. Ela reposiciona a imprensa e as artes não apenas como canais de representação, mas como trincheiras fundamentais na contenção de retrocessos históricos.

“Eu não preciso defender apenas o STF. Eu tenho uma instituição da democracia que se chama jornalismo. Assim como a literatura, a cultura e a arte. Mas a biblioteca da escola, a universidade, o clube de futebol, o samba e a feirinha de sábado também o são. Se cada um de nós assumir uma dessas instâncias e disser ‘ela é minha e vou defendê-la’, mesmo que se perca uma eleição, eles não vencerão”, advertiu.

No evento, os palcos expandiram essas reflexões para debater fronteiras, ancestralidade, encruzilhadas sociais e o protagonismo de mulheres que fazem literatura, tendo sempre como pano de fundo a metáfora do sertão interior. Em um país marcado pela travessia rosiana, a programação entrelaçou política, ficção e memória para pensar os rumos do presente.

A encruzilhada geopolítica e o medo como ferramenta eleitoral

A urgência de blindar essas estruturas ganha contornos diante de um cenário global instável e da polarização que antecede a ida às urnas. No encontro que dividiu com a escritora Beatriz Bracher sob o tema das marcas deixadas por conflitos históricos, Chade alertou para a fragilidade das garantias humanitárias e o apetite predatório sobre o território latino-americano.

“As veias da América Latina continuam abertas. E eu realmente acredito que parte do século XXI vai ser desenhada, curiosamente, em Minas Gerais: terras raras, abundância de recursos naturais e uma disputa entre Estados Unidos e China”, apontou o repórter.

Ao analisar o avanço autocrático e as travessias fronteiriças retratadas em suas coberturas, Chade enfatizou o risco de concessões paliativas. “Toda fronteira é política, criada de forma política. E quando você lida com um governo autoritário, se entrega os anéis para não perder os dedos, você acaba sem os dedos, sem a mão, sem o braço e sem a alma.”

Essa atmosfera de decisão incontornável dialogou diretamente com a fala de Eliana Alves Cruz. Em outra mesa do festival, ao refletir sobre ancestralidade, escrita e responsabilidade coletiva, a autora reforçou que momentos de ruptura exigem posicionamento: “Uma encruzilhada é um lugar de passagem, mas é um lugar. Há quem escolha ficar nela, olhando para um lado e para o outro sem olhar para si. Mas o acaso não nos protege; temos muito pouco tempo nesta vida para não fazer as coisas com intencionalidade”.

A guerra nua na literatura de Beatriz Bracher

Se a imprensa atua na averiguação factual e na denúncia cotidiana, a literatura assume a tarefa de escavar a verdade subjetiva. Vencedora do prêmio de romance da Biblioteca Nacional com “Guerra — I: Ofensiva Paraguaia e Reação Aliada (Novembro de 1864 a Março de 1866)” (Editora 34), primeira parte de uma trilogia sobre o conflito, Beatriz Bracher expôs como o resgate da correspondência íntima da época permitiu desnudar a violência desmedida do poder bélico.

“Esse romance traz fragmentos de textos de pessoas que combateram na guerra, de políticos e do imperador. A carta tem data, conta o dia a dia, se estava chovendo, se o soldado caiu do cavalo, se quem veio da mesma cidade está bem. E mostra uma saudade avassaladora das mulheres deixadas para trás”, revelou a escritora.

Bracher enfatizou que a arte não deve prestar contas a falsos apaziguamentos em épocas conflagradas: “O romance tem zero pretensão de pegar o outro ponto de vista; ele assume uma intenção de claustrofobia. O que posso dizer sobre a guerra é que ela é, basicamente, matar pessoas. O livro não traz esperança nenhuma; espero que nós e o nosso mundo tenhamos. Eu preciso fazer um livro que seja forte e bom por sua coerência interna e densidade”.

O protagonismo das mulheres na literatura e a urgência da escuta

A consolidação de um ambiente democrático também passa pela ruptura dos monopólios da palavra. Na mesa “Mulheres que Contam”, Míriam Leitão e Eliana Alves Cruz dimensionaram a escrita como uma vitória política contra o apagamento histórico.

“Escrevo porque preciso, porque os livros se impõem. Sou uma escritora tardia e isso é uma conquista imensa em um país cuja Academia Brasileira de Letras demorou décadas para aceitar uma mulher, apesar de ter sido cofundada por uma”, ressaltou Leitão, autora de “A Dança de Eliza” (Editora Intrínseca), ao resgatar seu pioneirismo na cobertura econômica nacional.

Para Eliana Alves Cruz, autora de “Solitária” (Companhia das Letras), criar literatura é um exercício de escrevivência e memória: “É um trabalho inútil tentar sair de nós. Sou eu, meu papel em branco e meus antepassados tentando elaborar um mundo. Meus antepassados me contam muitas coisas, e exercitar a leitura para além do que está nas frases paradas é um gesto de autocompreensão”.

A disposição para ouvir o outro emergiu como o compromisso comum entre as mesas. Como resumiu Chade: “A troca de cartas, o diálogo, é um instrumento poderoso para a gente retomar o que na nossa sociedade hoje falta tanto: escutar, escutar e escutar”.

O sertão como território de resistência e a travessia contínua

Celebrando as sete décadas de “Grande Sertão: Veredas” (Companhia das Letras), Mia Couto e Míriam Leitão juntaram-se a Chade para reiterar que a defesa do pacto cívico requer a capacidade de encarar o pavor e o radicalismo sem recuar.

“A literatura tem que desfazer o nó e mostrar que o que fazemos é contar histórias. Eu quero entender o outro, mesmo aquele que se refugiou em certezas absolutas, porque todos nós estamos com medo de não haver futuro”, pontuou Mia Couto, com uma advertência precisa sobre o papel ativo da sociedade diante do autoritarismo: “É melhor que sejamos nós a questionar a democracia antes que os fascistas o façam”.

Em um momento no qual o país se prepara para novas escolhas de rumo, os debates em Paracatu reafirmam que a travessia democrática não é abstrata nem garantida por herança. Ela sobrevive na densidade dos livros, no rigor das reportagens e na coragem de cada cidadão em assumir a sua parte na guarda da vida coletiva.