Abrindo a programação de mesas nacionais do sábado, Estevão Ribeiro e Geni Núñez refletiram sobre os lugares de onde vêm, as memórias que carregam e as diferentes formas de transformar experiências em criação

 

Antes de ser um lugar no mapa, um território pode ser o mar diante da casa, o trabalho que marcou uma infância, as palavras que se escutava dentro de casa, as histórias de quem veio antes. Para Estevão Ribeiro e Geni Núñez, escrever a partir de um lugar parece passar justamente por isso: transformar experiências vividas em matéria de criação. Na mesa “Escrever a partir do lugar”, realizada neste sábado (29), no 4.º Fliparacatu, os dois artistas conversaram com a escritora Taiane Santi Martins sobre linguagem, ancestralidade e os caminhos que os levaram a encontrar, na arte, uma forma de estar no mundo.

A conversa começou com uma provocação de Taiane, que apresentou os dois convidados como artistas que transitam por diferentes linguagens e gêneros. A partir da canção “Estado de Poesia”, de Chico César, perguntou quais seriam os caminhos que permitem a eles permanecer nesse estado de criação.

Para Estevão, a resposta passa primeiro pelo lugar de onde veio.

Estevão Ribeiro cresceu em uma ilha no Espírito Santo, cercado pelo mar. A paisagem, que poderia parecer distante da imagem tradicional de sertão, ganhou outro significado em sua memória,  e conta que aquele era o seu sertão. E que foi também um lugar de vulnerabilidade. Antes de se tornar escritor, ilustrador, roteirista e diretor audiovisual, o capixaba teve o primeiro emprego como chapeiro. São experiências que, segundo ele, não ficaram para trás quando sua trajetória artística começou. Ao contrário: continuam presentes naquilo que escreve. “Eu me sinto em dívida com aquele lugar”, contou.

A frase não parece falar de uma dívida literal, mas de uma espécie de compromisso afetivo. Há lugares que nos formam e aos quais, em algum momento, sentimos necessidade de devolver alguma coisa. No caso de Estevão, essa devolução acontece pela literatura.

Seu livro mais recente, Salve, Rainha! e Outras Histórias, nasce justamente desse movimento. Em sua estreia na prosa para adultos, o escritor reúne contos e uma novela que transitam entre realismo mágico, humor, ancestralidade e observação do cotidiano. São histórias atravessadas por personagens e paisagens brasileiras, nas quais o extraordinário não aparece como algo completamente separado da vida comum. 

 

É um livro sobre voltar para casa

 

O retorno, porém, não significa simplesmente voltar ao lugar de onde saiu. Depois de viver em outros lugares e construir uma trajetória em diferentes linguagens, o escritor retorna à sua origem carregando consigo tudo aquilo que encontrou pelo caminho. O capixaba explica que é uma forma de devolver a Vitória parte do afeto que recebeu de outros lugares por onde esteve.

 

Cada palavra pode ser um poema

Geni Núñez partiu de outro território para falar sobre a linguagem.

 

Para o guarani, cada palavra é um poema 

 

 

A escritora, psicóloga e ativista indígena Guarani chamou atenção para a multiplicidade da língua portuguesa e para a maneira como os diferentes modos de falar carregam histórias e experiências. Para ela, a palavra nunca existe isolada de quem a pronuncia.

Geni conta que transita entre literatura, pesquisa e psicologia. E é justamente essa multiplicidade que ela chamou de um “artesanato narrativo”: as diferentes maneiras que encontramos para nos expressar no mundo, e conclui apontando que às vezes, essa expressão é individual. Muitas vezes, porém, é coletiva.

Sua própria produção literária parte desse encontro. Em Felizes por Enquanto, Geni questiona modelos de relacionamento e pertencimento apresentados como se fossem universais. Em vez de oferecer uma fórmula sobre como devemos viver e amar, a autora abre espaço para imaginar outras possibilidades de existência.

Essa perspectiva também aparece em Takua e o segredo das constelações, livro que será lançado no dia 31 de agosto. A autora conta que a obra nasce de uma amizade antiga com uma pessoa Guarani que morreu há dois anos e se volta para a ancestralidade, a astronomia e a relação entre Terra e céu a partir da perspectiva Guarani.

Para as crianças, a história apresenta uma maneira diferente de olhar para o céu. Em vez de partir exclusivamente das constelações conhecidas pela tradição ocidental, como Órion e Ursa Maior, apresenta figuras e leituras próprias da astronomia indígena.

 

Quadrinhos também são lugar de pensamento

A conversa ganhou outra camada importante quando Taiane perguntou a Estevão sobre as suas artes em seus quadrinhos e as heranças indígenas que atravessam a obra de Geni. 

Para o escritor, representar imagens também é uma maneira de diálogo. Foi também nesse momento que Estevão falou de uma questão que atravessa sua própria trajetória: o lugar dos quadrinhos dentro da literatura e da arte. Ele contou que se incomoda com a associação automática entre quadrinhos e infância. 

Ser quadrinista, explicou, não significa necessariamente produzir para crianças. A linguagem pode abordar temas adultos, complexos e políticos — e merece ser reconhecida também como uma forma de produção de pensamento. Para explicar a potência dessa linguagem, lembrou a história de Emicida e de uma professora que percebeu seu fascínio pelos quadrinhos e adaptou os conteúdos escolares para esse formato, ajudando a reaproximá-lo da escola.

O episódio sintetiza algo que Estevão parece defender também em sua própria trajetória, que é a linguagem como porta de entrada para o mundo. Quando uma forma de contar histórias encontra alguém, ela pode fazer com que essa pessoa se reconheça, compreenda alguma coisa que antes parecia distante ou simplesmente descubra que existe um lugar para ela naquela narrativa.

Por isso, para Estevão, fazer cultura é também produzir pensamento, e isso não significa que o processo seja sempre confortável. Ele contou que, muitas vezes, a criação pode ser “meio depressiva”, marcada pela sensação de que aquilo que está sendo feito nunca é bom o suficiente. Ainda assim, existe algo que permanece: a certeza de que produzir cultura tem valor.

“Ser um fazedor de cultura e um produtor de pensamento” é, para ele, uma forma de ocupar o próprio lugar no mundo. A frase encontrou uma ressonância particular no tema desta edição do Fliparacatu, que propõe justamente uma reflexão sobre pertencimento, território e identidade.

 

A criação como retorno

Quando Taiane trouxe os trabalhos mais recentes dos dois autores, as trajetórias voltaram a se aproximar. Geni falou sobre Takua e o segredo das constelações como uma obra atravessada pela memória e pela amizade. Estevão falou sobre Salve, Rainha! como um retorno. Em ambos, a criação nasce de algo que já existia antes do livro: uma relação com pessoas, lugares, histórias e formas de perceber o mundo.

No caso de Estevão, esse movimento ficou ainda mais evidente no final da conversa. Depois de falar sobre o Espírito Santo e sobre o desejo de devolver à sua terra um pouco do afeto recebido ao longo da vida, o escritor pegou um reco-reco e cantou.

 

 

Foi na puxada de rede que eu trouxe meu amor

 

A música, ligada às tradições da capoeira, do samba de roda, dos pescadores e do universo afro-brasileiro, trouxe para dentro do auditório aquilo que a conversa vinha construindo em palavras. 

No encerramento, os dois autores leram trechos de suas obras. Depois de uma conversa sobre tantos modos de narrar, a leitura parecia uma consequência natural. O mar da infância de Estevão permanece em sua literatura. As palavras Guarani permanecem nas histórias de Geni. A ancestralidade, as paisagens, as pessoas e as experiências não ficam necessariamente onde aconteceram. 

 

4º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu reafirma seu compromisso com a diversidade de vozes, o pensamento crítico e a valorização da literatura como ferramenta de transformação social.

 

Serviço

4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)

De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo

Locais: Auditório e Praça – Centro Histórico de Paracatu

Entrada gratuita

Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu

Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br