
Mesa nacional da tarde deste sábado reuniu os escritores para uma conversa sobre pertencimento, identidade racial e as histórias que a literatura permite reconstruir
Paulo Scott e Jeovanna Vieira discutiram identidade racial, pertencimento e as diferentes formas como os corpos são percebidos socialmente na mesa “Literatura e o jogo da aparência”, realizada na tarde deste sábado (29), no 4.º Fliparacatu. Mediado por Ricardo Ramos Filho, o encontro também aproximou as experiências pessoais dos autores de suas obras mais recentes, Marrom e Amarelo e Toda Caixa-Preta é Laranja.
A pergunta que abriu a conversa partiu do tema desta edição do Fliparacatu: “Meu lugar no mundo”. Ricardo Ramos Filho convidou os escritores a pensar sobre o que essa ideia significava para cada um.
Para Jeovanna Vieira, natural de Espírito Santo, não existe um único lugar no mundo. Ele está nos espaços aos quais sempre deseja voltar, especialmente na família. Hoje, porém, a escritora também encontra esse lugar em outro território: o da fabulação.
Por sua vez, Paulo Scott aponta que seu lugar no mundo é movimento, “esse acumulado de percepções e de assombros”. Ao lembrar a própria trajetória, falou sobre os muitos caminhos que percorreu — da militância política à vida acadêmica e à literatura — e sobre uma inquietação que o acompanhou durante grande parte da vida: a vontade de fazer tudo. Aos 60 anos, disse encontrar seu lugar, agora, na desaceleração.
A partir daí, a conversa avançou para uma questão que atravessaria toda a mesa: a forma como somos lidos pelo mundo — e como essa leitura, muitas vezes construída a partir da aparência, determina pertencimentos, exclusões e invisibilidades.
Jogo de aparencia
Ao perguntar aos dois autores sobre a experiência de serem pessoas negras de pele clara, Ricardo levou a mesa para o centro de uma discussão que atravessa também suas obras: a maneira como a aparência interfere na forma como somos percebidos pelo mundo.
A capixaba contou sobre o processo de reconhecimento racial e sobre o desafio vivido por pessoas negras de pele clara em uma sociedade marcada pelo racismo. Em determinados contextos, explicou, a aparência pode fazer com que uma pessoa seja lida como branca, criando uma experiência particular de deslocamento. É um “não-lugar”, nas palavras da autora.
Mas Jeovanna fez questão de situar essa discussão dentro de uma estrutura maior. As experiências do racismo não são iguais para todas as pessoas negras — e, especialmente para pessoas negras retintas, a violência costuma aparecer de maneira ainda mais explícita. Reconhecer essa diferença, porém, não deveria significar transformar experiências distintas em uma disputa sobre quem sofre mais.
Vamos olhar em conjunto para quem está morrendo por esse mesmo racismo
A frase desloca a conversa da aparência individual para uma dimensão coletiva e o desafio, nesse sentido, não é apagar as diferenças entre as experiências, mas compreender o que elas compartilham dentro de uma estrutura que continua produzindo desigualdades. Paulo Scott retomou a ideia a partir de sua própria trajetória. Em Marrom e Amarelo, o autor também trabalha uma diferença que não é apenas abstrata.
O romance acompanha dois irmãos negros, Federico e Lourenço, marcados de formas distintas pelo racismo e pelas maneiras como seus corpos são lidos socialmente. A discussão atravessa, portanto, uma experiência que Scott conhece de perto. Ele contou ter um irmão mais retinto e uma família de pele mais escura que a sua. Ainda assim, afirmou nunca ter se sentido fora de sua identidade enquanto homem negro. Para ele, sustentar esse lugar é também um ato político.
A gente espera um mundo que o fenótipo não importa, mas a gente ainda está em trânsito
Ao longo da conversa, Jeovanna e Paulo defenderam, cada um à sua maneira, a importância de não transformar as diferenças internas da população negra em fragmentação. O movimento negro brasileiro construiu, historicamente, uma compreensão política que aproxima pessoas pretas e pardas para tornar visível uma desigualdade que não é individual, mas estrutural.
Os dados sobre violência, pobreza, acesso à educação e exclusão ajudam a mostrar que o racismo não atua apenas por episódios isolados. Ele organiza relações sociais, porém isso não significa que todas as experiências sejam idênticas. A mesa mostrou como elas podem ser diferentes — inclusive dentro de uma mesma família — e ainda assim atravessadas por uma estrutura comum.
A ficção como possibilidade de retorno
Toda Caixa-Preta é Laranja, lançamento de Jeovanna Vieira, acompanha uma mulher prestes a alcançar o maior passo de sua carreira — tornar-se a primeira mulher negra a comandar o maior avião de passageiros do mundo — quando precisa interromper tudo para procurar o pai, desaparecido durante uma viagem ao Rio de Janeiro.
A busca externa se transforma, pouco a pouco, em uma investigação íntima. Ricardo perguntou à autora o quanto havia de ficção e de realidade naquela história, no que Jeovanna conta que o livro levou seis anos para ser escrito e que nasceu, em parte, de sua própria relação com o pai –– presente, mas emocionalmente distante.
A escritora, então, fez aquilo que a literatura permite: aproximou-se da realidade e, ao mesmo tempo, se afastou dela. Tirou elementos, acrescentou outros e modificou acontecimentos para criar uma ficção que não fosse simplesmente uma reprodução da própria vida. Ao se retirar o máximo possível da narrativa, paradoxalmente, abriu espaço para imaginar. E foi justamente por meio dessa invenção que conseguiu ressignificar a própria relação.
O movimento faz sentido quando se volta à resposta dada por Jeovanna no início da mesa. Seu lugar no mundo, naquele momento, estava no “fabular”. Não como fuga da realidade, mas como uma outra maneira de lidar com ela.
4º Fliparacatu
Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.
Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.
Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu reafirma seu compromisso com a diversidade de vozes, o pensamento crítico e a valorização da literatura como ferramenta de transformação social.
Serviço
4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Locais: Auditório e Praça – Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br