O encontro percorreu as paisagens, a linguagem e as travessias que fazem de Grande Sertão: Veredas, do patrono João Guimarães Rosa, um clássico ainda atual

 

Setenta anos depois de sua publicação, Grande Sertão: Veredas continua atravessando leitores, territórios e gerações. Na noite deste sábado (29), Mia Couto e Míriam Leitão se reuniram no 4º Fliparacatu para celebrar a permanência da obra de João Guimarães Rosa e refletir sobre sua força literária e humana. Em diálogo com o tema desta edição, “Sertão em Nós: Meu lugar no mundo”, a conversa passou pela relação entre território e identidade, pela linguagem como forma de compreender o outro e pela travessia como experiência que transforma quem a percorre. Inicialmente prevista para participar da mesa, a ministra Cármen Lúcia não pôde comparecer devido a um imprevisto.

Mediado pelo jornalista Jamil Chade, o encontro “Grande Sertão: Veredas – 70 anos: A Travessia Continua” também aproximou os dois patronos desta edição: Guimarães Rosa, celebrado por sua obra, e Milton Santos, cuja reflexão sobre território ajuda a engrandecer as reflexões que o romance ainda provoca. Entre a experiência concreta do sertão, a invenção de uma linguagem rosiana e os desafios do mundo contemporâneo, os convidados discutiram como a literatura pode ensinar a olhar para um lugar e, a partir dele, compreender melhor a si mesmo.

A relação de Míriam Leitão com esse sertão passou também pela experiência concreta do território. A jornalista percorreu Serra das Araras, Ribeirão da Areia e o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas para produzir uma reportagem para a GloboNews. Foi a campo em busca das paisagens, das pessoas e dos caminhos que ajudam a compreender um pouco mais do universo que Guimarães Rosa transformou em literatura.

Para Mia Couto, porém, o encontro com Rosa aconteceu muito antes de chegar ao sertão brasileiro. Leitor da obra do escritor mineiro, o autor moçambicano afirmou que existe, em Grande Sertão: Veredas, uma linguagem que ultrapassa aquilo que é simplesmente dito. Para compreender a imensidão daquele sertão, seria preciso também aprender a escutar aquilo que a palavra não diz.

Ao longo da conversa, Jamil Chade retomou a trajetória de Guimarães Rosa como diplomata e sua passagem pela Alemanha nos anos que antecederam e atravessaram a Segunda Guerra Mundial. Ao lado da esposa, Aracy de Carvalho, o escritor ajudou judeus perseguidos pelo regime nazista a conseguirem vistos para deixar o país. A partir dessa dimensão humana de Rosa, Chade lançou uma pergunta sobre o que sua obra ainda ensina.

Para Míriam, uma das respostas está na escuta. “Ele ouviu o sertão”, afirmou. Poliglota, Guimarães Rosa conhecia diferentes idiomas, mas escolheu também escutar as formas de fala que encontrava no Brasil profundo. Em sua literatura, a linguagem do sertanejo não aparece como algo menor ou periférico. Pelo contrário: torna-se matéria de invenção, pensamento e poesia.

Para o escritor de Moçambique, contar e ouvir histórias é uma das formas mais profundas de compreender o mundo e aqueles que o habitam. Ele contou que procura conversar com pessoas que pensam de maneiras diferentes para tentar compreender de onde vêm suas visões de mundo. Em um tempo em que as fronteiras entre as pessoas parecem se multiplicar, a história pode ser uma forma de aproximação.

 

O mundo só faz sentido se for por via das histórias

 

Deixar o livro conduzir a história

Míriam Leitão também falou sobre uma ideia que, segundo ela, ainda afasta muitos leitores de Grande Sertão: Veredas: a fama de ser um livro difícil. Para a jornalista, talvez seja preciso abandonar a expectativa de compreender racionalmente cada palavra e permitir que a obra conduza a leitura. É preciso, como aconselhou, “ouvir a música” do livro.

 

A gente não lê (esse livro) com a racionalidade

 

É justamente essa relação com a linguagem que, para Míriam, faz da obra uma experiência de encantamento. Guimarães Rosa olha para a natureza, para o pássaro, para a serra, para os personagens e para o amor com uma atenção que acaba contaminando o leitor. “Eu quero que mais gente se apaixone, como eu me apaixonei aos 17 anos e nunca mais me desapaixonei. Eu sou uma encantada por João Guimarães Rosa”, afirmou a jornalista.

 

A travessia continua

A conversa avançou, então, para uma pergunta que aproximou a obra de Rosa dos desafios do presente: qual travessia ainda precisamos fazer?

Questionada por Jamil Chade sobre os caminhos necessários para enfrentar a questão social brasileira, Míriam retomou uma das imagens mais marcantes do romance. Para ela, Grande Sertão: Veredas começa em um travessão e termina na travessia — e é justamente por isso que ela continua. A jornalista reconheceu não ter uma resposta definitiva sobre o caminho que o Brasil precisa percorrer, mas afirmou acreditar que continuar a travessia talvez seja parte dessa resposta, porque é no meio do caminho que encontramos “o real”.

Mia Couto levou a mesma reflexão para uma escala mais ampla. Ao pensar nos desafios do mundo contemporâneo, defendeu a necessidade de questionar modelos políticos e as estruturas que organizam a vida coletiva e, para o escritor, escolher representantes e participar da vida pública são exercícios de cidadania que exigem responsabilidade. Mas falou também de algo maior: a necessidade de recuperar a paixão pela vida e o respeito pelo mundo que habitamos.

Biólogo de formação, Mia recorreu à própria dimensão da vida para lembrar sua complexidade e grandiosidade. Entre células, organismos e tudo aquilo que nos conecta ao mundo, sua reflexão devolveu a conversa a uma ideia que atravessou toda a noite: não somos separados daquilo que nos cerca. Setenta anos depois, Grande Sertão: Veredas talvez continue vivo justamente porque não entrega respostas prontas e, para o trio de autores, o livro segue pedindo escuta, imaginação e disposição para atravessar aquilo que ainda não compreendemos completamente.

Ao final do encontro, Celso Adolfo subiu ao palco com o violão para apresentar canções inspiradas no universo de Guimarães Rosa. Nascido em São Domingos do Prata, no interior de Minas Gerais, o compositor mantém há mais de uma década uma relação profunda com a obra do escritor, reconhecendo em Sagarana paisagens, personagens e modos de falar próximos de sua própria experiência. Foi dessa relação que nasceu um trabalho em que, como define o próprio artista, é possível “sair do livro ficando nele”. No palco, Jamil Chade também se juntou à apresentação, acompanhando Celso com a flauta transversal e levando a travessia rosiana na mesa para outro território: o da música.