
Literatura, atividades para crianças, oficinas e debates sobre os desafios do mundo contemporâneo movimentaram a manhã desta quinta-feira, 27 de agosto, no 4.º Festival Literário Internacional de Paracatu – Fliparacatu. Em sua programação, que neste ano tem como tema “Sertão em Nós: Meu lugar no mundo”, em homenagem a João Guimarães Rosa, pelos 70 anos de publicação de Grande Sertão: Veredas, e a Milton Santos, pelo centenário de seu nascimento, o festival reuniu diferentes públicos em torno da palavra, da criação e do pensamento. Entre os destaques do período esteve uma edição especial do Sempre Um Papo em Paracatu, que recebeu o jornalista e correspondente internacionl, Jamil Chade, para uma conversa sobre democracia, desinformação e os desafios do jornalismo factual. Todas as atividades fo festival são gratuitas, abertas ao público, e contam com transmissao ao vivo pelo Youtube no canal oficial do Fliparacatu,
Programação infantojuvenil
A programação para as crianças começou no Auditório, às 8h30, com Gleici Ribeiro e o espetáculo “Caliandra e o Rio de Histórias”. Às 9h30, foi a vez do Grupo Cênikas apresentar “Palhaço Trapalhão”, dando continuidade às atividades voltadas ao público infantil. Na Estação Literária da Praça, a manhã foi dedicada às oficinas. Às 8h30, Eneida Maciel conduziu “Cerrado Aplicado”, seguida, às 9h30, por Junior Mattos, com a oficina “Bolhas de Sabão”.
A manhã também reservou espaço para a literatura produzida e pensada a partir do território. Às 11h, a programação regional do Fliparacatu recebeu Carolina Campos de Carvalho, José Ivan Lopes e Murilo Caldas para a conversa “A Palavra como Travessia”, encontro dedicado à reflexão sobre a literatura e suas possibilidades de atravessar experiências, memórias e diferentes formas de olhar o mundo. Ana Carolina, José Ivan e Murilo integram a programação regional desta quarta edição do festival, que busca dar voz aos autores e pesquisadores ligados à produção cultural de Paracatu e do Noroeste de Minas.
Exposição “O Sertão de Portinari”
Durante todos os dias do evento, o público que circular pela Praça da Igreja do Rosário pode visitar gratuitamente a exposição inédita “O Sertão de Portinari”. Com curadoria de João Cândido Portinari e parceria com o Projeto Portinari, a mostra reúne obras que retratam as paisagens e as dinâmicas humanas do sertão brasileiro, incluindo telas da célebre série Retirantes.
Exposição do Grupo Matizes Dumont
O 4º Fliparacatu também apresenta a exposição “Meu Lugar no Mundo”, com nove obras inéditas inspiradas na geografia de Milton Santos e no sertão de Rosa. O bordado aparece como uma forma de contar, quando linhas, tecidos e pontos passam a registrar paisagens, experiências e modos de olhar para o mundo. A exposição acontece entre os dias 26 e 30 de agosto, na Fundação Municipal Casa de Cultura, com entrada gratuita.
Sempre Um Papo com Jamil Chade –– O jornalismo diante do “hackeamento da democracia”
Na edição especial do Sempre Um Papo em Paracatu, com mediação de Afonso Borges, Jamil Chade partiu de sua trajetória como jornalista e correspondente internacional para discutir um dos principais dilemas da profissão no presente: a desinformação. Radicado há 26 anos na Suíça, o jornalista também passou um ano nos Estados Unidos, experiência que serviu de base para “Tomara que Você Seja Deportado: Uma viagem pela distopia americana”. O livro reúne reportagens e crônicas produzidas durante suas viagens pelo país e aborda o medo vivido por imigrantes e o enfraquecimento de estruturas democráticas.
Para Chade, o momento atual é marcado pela instabilidade das democracias e pela ascensão de regimes totalitários. Nesse cenário, a desinformação deixa de ser apenas um problema relacionado à circulação de informações falsas e passa a funcionar como instrumento político e de poder. Segundo ele, grupos podem utilizar informações manipuladas para construir vantagens eleitorais e influenciar a percepção pública. O jornalista chamou atenção para a relação entre desinformação e deslegitimação da imprensa. Em sua avaliação, atacar a credibilidade dos meios de comunicação é parte de uma agenda política. Para Chade, comunicar exige compromisso com a ética e com a maneira como as notícias são apresentadas ao público.
Um dos exemplos citados durante a conversa foi a afirmação de Donald Trump sobre imigrantes estarem comendo gatos e cachorros. Para Chade, a declaração exemplifica como uma informação falsa pode ser utilizada deliberadamente para produzir um ambiente de hostilidade. O problema, segundo ele, está também na dimensão que consequências aparentemente “pequenas” podem alcançar quando são inseridas em disputas políticas e sociais mais complexas.
“A democracia está em risco em todo o mundo (…) e nós somos parte do problema”
O tempo da apuração
Questionado por Afonso Borges sobre os erros cometidos ao longo da carreira, Chade afirmou que foram muitos, mas que todos contribuíram para sua formação profissional. Entre os principais aprendizados, citou a necessidade de controlar a pressa para publicar uma informação antes que sua apuração esteja suficientemente amadurecida.
Como exemplo, lembrou uma investigação que levou cinco anos para ser concluída, relacionada ao ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. A apuração reuniu documentos, valores e informações bancárias que comprovaram o recebimento de milhões de francos suíços pelo dirigente. A experiência também evidenciou, segundo o jornalista, a importância do tempo para determinadas reportagens, em contraste com a velocidade exigida pelo ambiente digital. O dilema entre rapidez e precisão aparece, assim, como parte de uma transformação mais ampla na maneira como a informação é produzida, distribuída e consumida.
Chade também recordou sua cobertura da Primavera Árabe, período em que acompanhou, como correspondente internacional, os desdobramentos diplomáticos e humanitários das revoltas no Oriente Médio. O trabalho incluiu o acompanhamento de discussões e relatórios no âmbito da Organização das Nações Unidas e o registro das consequências provocadas pelos conflitos para milhões de civis. A Primavera Árabe e a Guerra da Síria serviram como referências para “O Caminho de Abraão”, seu primeiro romance de ficção.
Quando a notícia se torna um ativo
Ao falar sobre declarações de Donald Trump e seus efeitos sobre os mercados financeiros, Chade destacou o valor que uma informação pode adquirir quando chega a determinados grupos antes de se tornar pública.
Em agosto deste ano, a Trump Media & Technology Group, empresa responsável pela Truth Social, passou a trabalhar com um modelo de acesso antecipado a determinadas postagens. A possibilidade de conhecer declarações de figuras políticas antes de sua divulgação ganha relevância em um contexto no qual manifestações de autoridades podem provocar movimentos imediatos nos mercados. Para Chade, o fenômeno reforça uma questão central: quem controla a informação também exerce poder sobre a narrativa e sobre as decisões tomadas a partir dela.
Reportagem, opinião e a crise da imprensa
A crise econômica do jornalismo profissional também esteve entre os assuntos discutidos. Uma comunicadora de Paracatu questionou Chade sobre o crescimento do espaço destinado às colunas de opinião em comparação às reportagens. O jornalista apontou uma diferença fundamental: a reportagem exige recursos, tempo e estrutura, enquanto a opinião demanda menos investimento. Para ele, a crise financeira enfrentada pelo jornalismo factual dificulta a manutenção de equipes e investigações aprofundadas e torna ainda mais necessário separar com clareza o jornalismo baseado em fatos da produção opinativa.
“Um dos grandes desafios da imprensa é fechar essa equação”
Ao final da conversa, Chade deixou uma mensagem aos comunicadores de Paracatu, ressaltando a importância da imprensa local para a vida democrática da cidade, e do mundo.
4.º Fliparacatu
Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.
Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.
Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.
Serviço
4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br