
A literatura de João Guimarães Rosa é um organismo vivo, que se espalha e ganha corpo no som, na paisagem e no afeto. Essa foi a premissa que conduziu a mesa “Palavra Mundo”, realizada na tarde desta quinta-feira no Fliparacatu. Sob a mediação calorosa do escritor Marcelino Freire, os convidados Mônica Meyer e Ítalo Moriconi compartilharam análises acadêmicas e a dimensão do prazer e da afeição pessoal que mantêm com a obra do autor mineiro.
Para abrir a conversa, Marcelino provocou os convidados a relembrarem quando Guimarães Rosa cruzou suas trajetórias. Mônica Meyer voltou a 1969, em pleno auge da ditadura militar, ao recordar a exibição do filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, dirigido por Roberto Santos a partir do conto de “Sagarana”, durante o Festival de Inverno de Ouro Preto. O impacto do filme, que tinha uma canção de Geraldo Vandré na trilha sonora, selou uma conexão definitiva. Já Ítalo Moriconi resgatou seu tempo de estudante no “segundo ano do ginasial”, quando uma professora mineira lhe apresentou o universo roseano pela primeira vez em uma aula de literatura. Ambos os encontros dos escritores com a obra de João Guimarães Rosa culminaram no lançamento de suas obras mais recentes: Mônica com “Ser-tão natureza: a natureza de Guimarães Rosa” e Ítalo com “Para ler Grande Sertão: Veredas”.
Questionados por Marcelino sobre o método para encarar o vocabulário e os neologismos de Rosa, os escritores revelaram duas abordagens que podem até mesmo ser complementares. Mônica sugeriu a leitura em voz alta, que resgata a cadência da prosódia mineira e a riqueza das onomatopeias, permitindo apreender o som exato que o autor buscava traduzir quando escrevia sobre a fauna e a flora que ambientam a história. Ítalo, por sua vez, lembrou o uso contínuo do dicionário nos primeiros contatos e pontuou que a escrita de Guimarães funciona em rede: o romance se desdobra em veredas, espelhando a própria trajetória e as buscas de Riobaldo.
Indo além da conversa, Mônica compartilhou registros fotográficos de uma expedição de Guimarães Rosa pelo sertão mineiro, publicada originalmente na revista “O Cruzeiro”. Nas imagens, o grupo aparece montado em mulas e burros, acompanhado pelo capataz Manoelzão (que, segundo Mônica, era um homem semiletrado, mas com leitura dos sinais da natureza), por Chico Moreira, primo do autor e único a cavalo na ocasião, e pela montaria de Rosa, batizada de Balalaika.
A dimensão natural e a observação atenta do meio ambiente ocuparam lugar central no debate. Mônica refletiu sobre como o exercício humano de escuta do mundo natural costuma ser analfabético e citou a poética expressão de Rosa, “avisto o canto das araras”. Ela mencionou que, em sua passagem por Paracatu para sua participação no Festival, conseguiu vivenciar essa mesma percepção ao “avistar o canto” de tucanos, maritacas e rolinhas-fogo-apagou.
4.º Fliparacatu
Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.
Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.
Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.
Serviço
4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br