
Fabiana Carneiro e Calila das Mercês falaram sobre memória, migração, mulheres e as histórias que atravessam suas obras durante a mesa “Escrever a partir do lugar”
Uma casa pode atravessar gerações, uma história ouvida na infância pode reaparecer décadas depois em um poema, e uma viagem pode deixar marcas que, mais tarde, encontram um caminho pela ficção. Foi nesse território — feito de memória, deslocamento e retorno — que Fabiana Carneiro e Calila das Mercês se encontraram na mesa “Escrever a partir do lugar”, realizada nesta quinta-feira (27), no 4.º Fliparacatu.
Mediado por Ricardo Ramos Filho, o encontro partiu dos livros mais recentes das duas autoras, Casa Cheia, de Fabiana, e Nódoa, de Calila, para percorrer as experiências que antecedem a escrita e, de alguma maneira, continuam existindo dentro dela. Professora, crítica literária e pesquisadora, Fabiana constrói em sua obra poética uma investigação sobre ancestralidade, maternidade, migração e experiências afro-indígenas. Calila e nascida na Bahia, poeta, escritora, pesquisadora e jornalista, acaba de lançar seu primeiro romance, uma narrativa marcada por vozes, deslocamentos e histórias de mulheres.
A conversa mostrou que escrever a partir de um lugar não significa, necessariamente, permanecer nele.
O caminho de volta e a escrita em trânsito
Ao ser perguntada sobre as escrevivências presentes em Casa Cheia, Fabiana Carneiro disse que Casa Cheia foi também uma forma de pensar sobre si mesma e sobre sua própria existência. Uma investigação, como definiu, ontológica e epistemológica — mas que parte também de experiências concretas: da memória, da família e das histórias que chegaram até ela pela oralidade. “Fazer esse caminho de volta”, explica.
Esse retorno, no entanto, não leva a um lugar fixo. Fabiana falou de uma escrita construída nos “entre-lugares”, de uma obra que nasce justamente das “travessias profundas e subjetivas” que formam sua trajetória. A migração, a ancestralidade e as experiências comunitárias não aparecem apenas como temas do livro: são parte da maneira como essa escrita se move.
Calila encontrou, nesse ponto, uma aproximação com a companheira de mesa. “Eu estou aprendendo a falar sobre esse livro”, contou, referindo-se a Nódoa, lançado recentemente. Também para ela, a escrita está ligada ao movimento.
O romance acompanha personagens marcadas por partidas e recomeços, e sua própria construção foi atravessada por deslocamentos. Calila recuperou viagens e trajetórias que percorreu durante a vida e que encontraram espaço na ficção, entre elas o caminho do Maranhão ao Piauí.
“Nódoa”, portanto, não nasceu de uma única origem. O livro parece se formar por camadas: memórias pessoais, pesquisas, histórias escutadas e perguntas que a autora carregou consigo até encontrar uma forma de transformá-las em narrativa. Entre elas está a lembrança de um tio que tinha catalepsia. A condição despertou a curiosidade de Calila e se tornou uma das faíscas que a aproximaram da escrita do romance.
Ainda sobre escrevivência, Calila contou sobre o desejo de escrever uma história de mulheres. Queria mais do que criar personagens extraordinárias ou heroínas, ela queria olhar para vidas comuns. Mulheres que trabalham na terra, que alimentam as famílias e sustentam, muitas vezes de forma invisível, uma parte fundamental da vida coletiva. A pergunta, para ela, era: quais são os desejos dessas mulheres? Com o que elas sonham?
Ao falar de Nódoa, Calila explicou que buscava trabalhar com a atemporalidade e com aquilo que chamou de uma “ideia do impossível”, mas sem abandonar as experiências cotidianas. Queria personagens que tivessem coragem e que se entrelaçassem umas às outras. Há, nesse gesto, uma recusa a aceitar que apenas determinadas vidas sejam dignas de se tornar literatura. A ficção, para a baiana, também pode abrir espaço para aquilo que costuma passar despercebido.
A casa cheia de histórias
A imagem da casa voltou à conversa quando Fabiana falou sobre o poema “Migração”, presente em Casa Cheia. A autora refere-se ao livro como uma obra coletiva e explica que, mesmo quando a escrita parte de uma experiência íntima, ela carrega outras vozes e torna visíveis histórias de travessia e pertencimento que também ajudam a contar a história do país.
Fabiana lembrou o poeta Edimilson de Almeida Pereira ao refletir sobre uma questão que acompanha qualquer processo de escrita: o que é preciso dizer e o que queremos dizer?
A literatura, afirmou, pode ser também uma forma de buscar uma vida possível. A ideia ganha uma dimensão particular quando se pensa na migração. Partir significa atravessar distâncias, mas também carregar aquilo que ficou para trás. É nesse movimento que a casa do livro aparece como uma imagem generosa: cheia de histórias, cheia de pessoas, mas ainda assim aberta à chegada de mais alguém.
“Essa casa, que está cheia, mas sempre cabe mais um”
A ficção nunca escapa completamente da memória
Uma das perguntas da mesa foi direta: a ficção consegue escapar da memória? Para as duas autoras, a resposta pareceu ser não. Mesmo quando personagens e acontecimentos são inventados, a memória continua trabalhando por baixo da narrativa. Ela aparece nas experiências pessoais, nas histórias escutadas, nas pesquisas e nos encontros que transformam a maneira de olhar para o mundo.
Calila lembrou de viagens realizadas durante seu processo de pesquisa e de mulheres que conheceu pelo caminho. Contou que encontrou mulheres muito jovens que já tinham filhos e não conheciam o alfabeto. A experiência a marcou também pela diferença. Ela estava no mesmo espaço, percorria trajetos semelhantes, mas vivia uma história completamente diferente daquelas mulheres. Reconhecer essa distância foi parte do próprio processo de escrita.
As experiências que encontrou não ficaram para trás quando a viagem terminou. Tornaram-se perguntas sobre desigualdade, sobre as mulheres que costumam permanecer à margem e sobre a responsabilidade de transformar o que se vê em literatura sem acreditar que é possível falar pelo outro. Ao falar dessas mulheres, Calila revelou o compromisso que acompanha sua escrita: trazer para a narrativa a força de vidas que existem longe das versões heroicas e espetaculares da história, mas que carregam desejos, medos e muita coragem.
Nas obras de Fabiana e Calila, o lugar está em movimento. O lugar, afinal, não é apenas onde estamos, mas também aquilo que atravessamos — e aquilo que continua nos atravessando quando começamos a escrever.