“O Brasil foi por tanto tempo o país do futuro que ele começou a desprezar o futuro”. Esta foi a resposta de Sérgio Abranches a Jamil Chade quando este o perguntou sobre a dificuldade brasileira de entender e pensar o porvir. Os dois escritores participaram da mesa de debate “O Futurismo”, que contou com a presença de Ale Santos, um dos principais representantes do afrofuturismo na literatura contemporânea. O encontro, que foi realizado na noite desta quarta-feira (26), evidenciou que falar de futuro não implica apenas falar do presente. Este fato é percebido ao contemplar o encontro dos três escritores que, cada um com suas vivências particulares, contribuiu com percepções, ideias e inspirações sobre o que se é pensado a respeito do que há de vir.

Ale Santos, cuja escrita é balizada não apenas no futurismo, mas no afrofuturismo, introduziu a ideia de que existem diferentes ideias sobre o que é o futuro. O escritor afirmou que a ideia comum que se tem a respeito do futuro do mundo foi criada pelos europeus, e que se faz necessário criar uma ideia latinoamericana de futurismo. O próprio autor contou sobre a derivação de sua escrita, que partiu do futurismo criado pelos Estados Unidos e fez uma antropofagia crítica. Como resultado, vieram as obras “Rastros de Resistência: Histórias de Luta e Liberdade do Povo Negro”, “O Último Ancestral” e “A Malta Indomável”. 

Em diversos momentos, o nome de Isaac Asimov foi mencionado. Escritor e bioquímico russo, Asimov é considerado um dos mestres da ficção científica. Em uma das menções, Sérgio Abranches trouxe uma frase dita pelo pensador: “a ficção científica de hoje é o fato científico de amanhã”. Muitas das ideias apresentadas pelos convidados no 4.º Fliparacatu convergiram para a necessidade urgente de questionar as visões de porvir importadas de outros países, inclusive as consolidadas pela literatura ocidental e norte-americana. A reflexão provocou um questionamento central sobre os modelos urbanos e sociais vigentes: por que uma cidade dita futurista é sempre concebida sob padrões externos que pouco dialogam com as realidades locais e culturais?

A discussão ressaltou que a produção nacional de ficção científica permaneceu incipiente por muito tempo, abrindo um grande hiato na literatura brasileira. Nesse cenário, autores como Ale Santos despontam como representantes para preencher essa lacuna, bem como Sérgio Abranches, que lançou o romance “A Franja do Fim do Mundo”. Ale, inclusive, menciona o trabalho de Sandra Menezes, escritora com quem divide o painel “Afrofuturismo e os imaginários da ficção”, juntamente com Sérgio Abranches. A atividade faz parte da Programação Nacional do 4.º Fliparacatu e acontece no sábado, 29 de agosto, às 14h, também no Auditório do Festival

O debate caminhou para a constatação de que projetar o porvir deixou de ser um exercício imaginativo, mas uma questão de sobrevivência. Jamil Chade contou sobre sua viagem recente à Islândia, quando viu os efeitos do aquecimento global em um nível mais avançado que em outras partes do mundo. No contexto atual do Brasil, pensar o futuro é indispensável para a própria salvaguarda da identidade e da cultura nacional. Finalizando a roda de conversa, Chade perguntou a Abranches em um tom descontraído: “por que é que no passado o futuro era melhor?”. 

4.º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.

Serviço

4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br