
Escritores convidados do Fliparacatu refletiram sobre visibilidade, desigualdade e a necessidade de garantir que diferentes corpos e experiências possam ocupar os espaços da sociedade
O que seria, afinal, um mundo acessível? A pergunta abriu a mesa “Por mundos acessíveis”, realizada nesta quinta-feira (27), no auditório do 4.º Fliparacatu, e deu o tom de um encontro que tratou de barreiras que nem sempre aparecem nas calçadas. Mediados por Ricardo Ramos Filho, o jornalista e escritor Jairo Marques e o romancista Paulo Scott falaram sobre vulnerabilidades, racismo, representação, linguagem e cidadania — temas que, embora atravessem experiências distintas, se encontram na discussão sobre quem consegue, ou não, ocupar plenamente os espaços do mundo.
Repórter especial e colunista de diversidade da Folha de S.Paulo, Jairo Marques escreve há décadas sobre acessibilidade, direitos humanos e inclusão. Cadeirante desde a infância, ele é também autor de Malacabado: A História de um Jornalista sobre Rodas”, obra autobiográfica em que revisita sua própria trajetória. Sua publicação mais recente é “Crônicas para um Mundo Mais Diverso”, que reflete sobre acessibilidade em textos escritos ao longo de mais de uma década — muitos deles publicados em sua coluna na Folha.
Paulo Scott, por sua vez, é autor de romances como Habitante Irreal, Sanduíche de Anzóis e o romance Marrom e Amarelo, que acompanha dois irmãos marcados de maneiras diferentes pela experiência do racismo no Brasil. Com o romance, venceu o Prêmio Jabuti em 2023, na categoria “Livro Brasileiro Publicado no Exterior”, o Prêmio Açorianos de Literatura em 2020 e o levou a ser semifinalista do International Booker Prize em 2022.
Entre perguntas e respostas, a mesa foi desenhando uma ideia de acessibilidade mais ampla: não basta remover uma barreira quando tantas outras continuam determinando quem pode ser visto, ouvido e reconhecido.
“A pessoa com deficiência carrega um caminhão de estigmas”
Para Jairo Marques, pensar em acessibilidade exige começar por uma mudança de olhar. Pessoas com deficiência, disse, não encontram obstáculos apenas diante de uma escada ou de uma porta estreita. Carregam consigo aquilo que chamou de “um caminhão de estigmas”. São barreiras físicas, mas também sociais, culturais e simbólicas.
Jairo chamou atenção para a necessidade de pessoas com deficiência ocuparem os mais diferentes espaços — inclusive aqueles de visibilidade, como os palcos e os lugares de produção cultural. “Eu tô sempre sozinho na minha representatividade”, afirmou.
A frase evidencia uma contradição conhecida por quem discute inclusão: estar presente não é o mesmo que ser representado. Uma pessoa com deficiência pode até conseguir entrar em um espaço, mas isso não significa que aquele lugar esteja preparado para acolher outras experiências, escutar outras perspectivas ou reconhecer a diversidade como parte de sua própria existência.
Para o jornalista, um mundo mais acessível começa também quando reconhecemos a nossa própria vulnerabilidade. A deficiência, nesse sentido, não deveria servir para afastar ou transformar determinadas pessoas em exceção, mas para lembrar que todos os corpos dependem, em algum momento, das condições que o mundo oferece — ou deixa de oferecer.
A disputa também acontece nas palavras
Essa discussão apareceu de outra maneira quando Ricardo Ramos Filho perguntou sobre o título de “Malacabado”. Jairo contou que a escolha encontrou resistência editorial por razões comerciais, mas que sua relação com a linguagem passa justamente pela possibilidade de se apropriar de palavras que carregam preconceito e transformá-las e, assim, brinca que o título funciona como uma provocação.
Jairo lembrou também como determinados termos utilizados historicamente para se referir às pessoas com deficiência contribuíram para transformá-las em objetos de uma condição. A disputa atual, disse, passa por algo aparentemente simples, mas ainda distante da realidade de muitas pessoas: pessoas com deficiência tentando ser apenas pessoas e estar onde outras pessoas estão.
Experiências próximas não são experiências iguais
Quando a conversa se voltou para a trajetória de Paulo Scott enquanto um homem negro de pele clara, o escritor partiu da desigualdade histórica que atravessa a formação do Brasil.
“O Brasil está muito mais próximo, na cabeça, de 1500 do que de 2026”
Paulo traçou uma relação entre as desigualdades socioeconômicas do nosso país e a posição historicamente marginalizada da população negra. Ao falar de sua própria experiência, refletiu também sobre as diferenças existentes entre pessoas negras de diferentes tonalidades de pele. Mesmo quando duas pessoas compartilham uma identidade racial, explicou, isso não significa que vivam as mesmas experiências. Isto é, uma pessoa negra de pele clara não pode simplesmente presumir que compreende, em todos os sentidos, a vivência de uma pessoa negra de pele retinta.
A reflexão dialoga com Marrom e Amarelo. No romance, Paulo Scott acompanha dois irmãos que, embora pertençam à mesma família e tenham uma mesma origem, encontram formas diferentes de lidar com a discriminação racial. Um se aproxima do ativismo; o outro tenta atravessar essas experiências de maneira mais silenciosa.
A diferença entre eles não diminui o racismo que ambos enfrentam. Pelo contrário: mostra como uma mesma estrutura pode atravessar corpos de maneiras distintas. Para Paulo, é justamente por isso que o diálogo continua sendo indispensável.
Como escapar de um cenário tão agressivo?
Ricardo Ramos Filho trouxe então a pergunta: diante de uma sociedade em que racismo e capacitismo continuam tão presentes, como pensar a cidadania? E, sobretudo, como escapar?
Jairo respondeu sem hesitar que “escapar vem do conhecimento, vem da visibilidade”. Ele lembrou que milhares de pessoas com deficiência no Brasil continuam vivendo, em suas palavras, “em catacumbas”. A falta de acessibilidade mantém muitas delas afastadas não apenas da escola ou do trabalho, mas do lazer, da cultura e das experiências cotidianas que pessoas sem deficiência costumam considerar naturais.
Ela aparece quando não há transporte, quando um espaço não pode ser acessado, quando uma criança não encontra outras crianças com deficiência na escola e quando determinados corpos continuam ausentes da produção cultural. Jairo levou a pergunta também para a literatura: quantos escritores com deficiência têm, de fato, visibilidade? Quantas histórias produzidas a partir dessas experiências conseguem chegar ao público?
“A gente precisa garantir espaço para os outros para que a gente evolua”
Paulo respondeu à mesma pergunta por outro caminho. Para ele, escapar talvez passe por “assumir a loucura, ou o delírio, que nos impulsione na direção do hoje”. Mais do que esperar uma transformação abstrata, defendeu a necessidade de olhar para a violência sem jamais naturalizá-la. Diz ser preciso combater, afrontar e, sobretudo, olhar para o outro e enxergá-lo de fato.
Scott também prestou homenagem ao trabalho de Jairo e à maneira como o jornalista construiu sua trajetória de combate à exclusão. “Duvido alguém ler um texto de Jairo e sair igual”, disse o autor.
Como chegar num mundo acessível
Jairo não demonstrou otimismo fácil em relação à velocidade com que esse cenário pode mudar. A transformação, afirmou, exige um trabalho extenso e coletivo. Mas terminou trazendo esperança num lugar mais concreto: a educação.
Para ele, pais e mães precisam ensinar seus filhos a conviverem com a diferença desde cedo. Questionar as escolas sobre a ausência de crianças com deficiência, por exemplo, pode parecer uma ação pequena, mas ajuda a expor uma exclusão que muitas vezes permanece invisível.
A escola, lembrou, é um dos primeiros lugares onde aprendemos a viver com outras pessoas. E essa aprendizagem não acontece apenas no conteúdo formal das salas de aula. Acontece na convivência, no encontro e na possibilidade de perceber que o mundo é formado por pessoas que vivem de maneiras diferentes.
Um mundo acessível não se constrói apenas quando instalamos uma rampa ou mudamos uma lei. Ele começa a ser construído quando alguém pergunta por que determinadas pessoas não estão ali.