Sob a mediação do jornalista e escritor Jamil Chade, o auditório do Fliparacatu recebeu na noite de 27 de agosto a mesa “O amor e o medo em um mundo em crise”, reunindo o filósofo e psicanalista Renato Noguera e a escritora e ativista indígena Geni Núñez. Chade abriu o debate compartilhando memórias de suas coberturas em cenários de crises humanitárias e campos de refugiados pelo mundo. O escritor destacou como o medo da travessia e o amor pelo cuidado caminham lado a lado em situações extremas, citando o episódio marcante de uma família síria que transportava uma idosa em uma cadeira de rodas sobre os trilhos de um trem. 

Renato Noguera, ao ser provocado sobre a força do medo, explicou o conceito sob a ótica da filosofia e da psicanálise. O autor caracterizou o medo como um afeto primário, essencial para a sobrevivência da espécie desde o período paleolítico. Noguera pontuou que o medo aciona o modo de sobrevivência de forma a gerar uma intensidade capaz de paralisar a contemplação. No entanto, acrescentou que o medo também é frequentemente instrumentalizado por discursos políticos para gerar controle, concorrência e afastamento social. Já em relação ao amor, Noguera argumentou que a experiência amorosa exige o desarme da busca pelo poder. Para ele, a sociedade ocidental educa os sujeitos para a invulnerabilidade, o que entra em choque com a própria natureza do amar, que requer “reconhecer a pequenez e a vulnerabilidade”.

Geni Núñez, por sua vez, expandiu o debate ao propor o questionamento sobre os padrões coloniais de afeto e a necessidade de pensar a pluralidade. A escritora enfatizou que a descolonização dos afetos não ocorre de forma isolada, pois depende diretamente da garantia de direitos básicos para os povos originários e periféricos, como o acesso à água, ao alimento e ao território. Geni fez um chamado ao “reflorestamento do imaginário”, criticando as narrativas de exclusividade e dominação que limitam as formas de existir e de se relacionar – algo que discorre a respeito em seu livro “Descolonizando afetos: Experimentações sobre outras formas de amar”, lançado em 2023.

A autora também abordou a distorção do tempo provocada pelo regime capitalista: tanto a aceleração desenfreada quanto a lentidão burocrática propositada operam como formas de violência. Ao final do encontro, Geni Núñez presenteou o público com a leitura do poema “Amar ao próximo como se fosse outro”, de sua autoria, encerrando a noite com uma reflexão sobre a importância de respeitar as alteridades sem a tentativa de conversão ou apagamento da singularidade do outro.

4.º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.

Serviço

4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br