Com mediação de Geni Núñez, autores falam sobre memória, silêncios, medo, raiva e relações humanas na mesa “Mulheres e Destinos” na sexta-feira de festival

 

A relação entre uma mãe e uma filha, o medo que aprendemos a esconder, a raiva que empurramos para o “porão”, os silêncios que existem dentro das famílias e a dificuldade de não se comparar com a vida dos outros. Na mesa “Mulheres e Destinos”, realizada nesta sexta-feira (28), no 4.º Fliparacatu, Natalia Timerman e Renato Noguera partiram de seus livros mais recentes para falar sobre aquilo que, embora faça parte da experiência humana, muitas vezes tentamos esconder de nós mesmos. A conversa foi mediada por Geni Núñez.

Natalia, escritora e psiquiatra, é autora de Antes que Apague, romance que acompanha uma relação entre mãe e filha atravessada pela perda gradual da memória. Renato, filósofo e professor da UFRRJ, publicou Medo e Raiva, obra em que investiga esses dois afetos a partir de diferentes tradições filosóficas. Livros diferentes, mas que acabaram se encontrando em uma mesma pergunta: o que acontece quando aquilo que sentimos não encontra espaço para ser vivido?

 

“Ninguém termina em si mesmo”

Ao falar sobre Antes que Apague, Natalia Timerman começou pela relação entre uma mãe e uma filha. Para a autora, somos formados nas relações que estabelecemos e carregamos as pessoas que nos criaram, os vínculos que construímos e até mesmo as ausências que permanecem depois que alguém parte. As mães, lembrou Natalia, costumam ser uma das primeiras referências na formação de uma pessoa. Mas isso não significa que essas relações sejam simples. “Toda família tem silêncios”, disse.

A literatura, em vez de preservar uma imagem idealizada da família, pode justamente abrir espaço para aquilo que raramente se diz. As crises, os conflitos e os lados difíceis das relações também fazem parte da experiência humana. Natalia falou sobre sua escolha de não transformar esses aspectos em tabu. Humanizar uma família, nesse sentido, talvez seja aceitar que os vínculos que mais nos constituem também podem ser aqueles que mais nos desafiam.

Foi nesse ponto que sua fala encontrou uma das reflexões centrais de Renato Noguera.

Aquilo que grita e incendeia

Para Renato, medo e raiva são afetos primários que aprendemos a empurrar “para o porão”. Há uma espécie de educação sentimental que nos ensina a desejar apenas aquilo que parece bonito: alegria, tranquilidade e felicidade. O problema é que tentar expulsar os outros sentimentos não significa deixar de senti-los.

 

Aquilo que é sombrio em nós revela muito sobre quem nós somos

 

Ignorar a raiva ou o medo, portanto, não é necessariamente uma forma de superá-los. Pode ser apenas uma maneira de permitir que continuem existindo sem que saibamos como lidar com eles. Renato não defendeu que esses afetos sejam celebrados de maneira irresponsável. O que propôs foi outra coisa: reconhecê-los como parte da experiência humana e aprender a manejá-los.

A aproximação com a fala de Natalia foi imediata e, assim como os silêncios familiares não desaparecem quando são escondidos, aquilo que tentamos empurrar para dentro também pode continuar interferindo nas relações. Em diferentes momentos da mesa, a mesma pergunta parecia retornar: o que fazemos com aquilo que não queremos olhar?

Quando a ficção permite tocar de novo

Natalia também falou sobre o processo de escrita de Antes que Apague e, segundo ela, o livro foi inspirado na vivência da autora ao lidar com o Alzheimer na família, e porque já não podia mais falar com a mãe, que havia feito a passagem. É pela ficção, explicou, que algumas coisas podem ser tocadas novamente. Talvez não da mesma maneira. Nesse sentido, coloca a literatura como algo que te permite voltar a determinadas perguntas quando a vida já não oferece outro caminho para fazê-las.

Para além disso, Timerman descreveu a escrita da obra como um processo de montagem trabalhoso. O texto foi mudado até o último momento possível. “Eu fui conhecendo o livro conforme eu fui escrevendo ele”, contou. 

A frase revela algo que muitas vezes fica escondido quando um livro chega pronto às mãos do leitor: a obra não é apenas resultado de uma ideia que o escritor já conhecia. Em alguns casos, é também uma forma de descobrir aquilo que ainda não se sabe. A literatura aparece, então, não como um lugar onde o sofrimento é apagado, mas como um espaço em que ele pode ganhar outra forma.

Afetos, violência e liberdade

A conversa com Renato Noguera também ampliou a ideia de que os afetos nunca existem completamente separados do mundo. O autor abriu espaço para uma reflexão sobre preconceitos que atravessam diferentes dimensões da sociedade, como a homofobia, as questões de gênero e a violência contra as religiões de matriz africana.

Dessa forma, o autor chamou atenção para as diferenças entre estruturas religiosas e as formas como os papéis de gênero são distribuídos em determinados contextos. Enquanto muitos ambientes reservam aos homens os lugares associados ao poder e à força e impõem limites específicos às mulheres, as religiões de matriz africana lhe apresentaram outras possibilidades de existência. 

Crescer nesse ambiente, afirmou, foi fundamental para quebrar estigmas e ampliar sua visão de mundo. No fim da conversa, Renato falou sobre outro tipo de peso: o das redes sociais. A comparação constante, a sensação de que é preciso medir a própria vida pela vida dos outros e o desejo de ser alguém diferente da pessoa que se é. Nas telas, lembrou, muitas vezes observamos versões que sequer correspondem à vida inteira de quem as publica.

 

A gente não precisa se mensurar na relação com o outro

 

O professor e escritor afirma que há uma luta permanente para corresponder, superar, esconder e controlar. Mas talvez a vida não precise ser uma disputa o tempo todo. “A gente pode só dançar um pouco”, termina Noguera.

 

4º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu reafirma seu compromisso com a diversidade de vozes, o pensamento crítico e a valorização da literatura como ferramenta de transformação social.

Serviço

4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)

De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo

Local: Centro Histórico de Paracatu

Entrada gratuita

Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu

Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br