O sertão enquanto um espaço de invenção, memória e identidade foi tema do encontro que aconteceu às 16h no Auditório do Fliparacatu. Reagrupando olhares sobre a formação cultural brasileira, o historiador Vandeir José da Silva, a pesquisadora Telma Borges e a produtora cultural Helen Ulhôa Pimentel ocuparam o auditório do festival para examinar os pontos de contato e as divergências no modo como Afonso Arinos e João Guimarães Rosa escreveram sobre o território sertanejo.

Em sua fala, Helen resgatou a força da personalidade de Afonso Arinos e a atuação do autor no cenário de São Paulo. Ao transportar expressões populares para seu círculo social, como no episódio em que levou o cateretê para dentro de seu salão, Arinos apresentava o sertão às elites do período. Ele sustentava a premissa de que era importante que os intelectuais com quem convivia precisavam conhecer o Brasil profundo.

Na perspectiva debatida pelos participantes, Afonso Arinos preparou o solo para o Modernismo décadas antes do movimento efetivamente florescer. A postura do escritor paracatuense superava o simples desejo de compreender a cultura do povo: havia nele o empenho deliberado de aproximar o seu grupo social de origem das manifestações populares que apresentava em sua literatura.

Essa postura aparece em sua obra, revelando a distância entre os estilos dos dois autores mineiros. A literatura de Afonso Arinos sobressai como uma geografia física bem delimitada, na qual a aridez, a barbárie e a melancolia desenham os contornos da vida cotidiana e expõem as carências do interior. Em contrapartida, João Guimarães Rosa transformou o sertão em algo quase metafísico. Na prosa rosiana, a paisagem perde o caráter de cenário e ganha a densidade da existência: o sertão não está no mapa, “o sertão é dentro da gente”.

Telma Borges transformou o encontro literário em aula. Segundo a professora, enquanto Afonso Arinos descreve a terra, Guimarães Rosa reinventa a própria linguagem por meio de neologismos, travessias e ritmos orais. É por meio dessa linguagem recriada que o personagem Riobaldo elabora os seus dilemas mais íntimos, questionando as sombras do bem e do mal e a própria natureza de Diadorim, figura misteriosa que levanta questionamentos sobre ser uma presença diabólica ou angelical.

A roda de conversa, entre fatos sobre as histórias pessoais de Afonso Arinos e João Guimarães Rosa e leituras de textos complementares às falas de Tema, Vandeir e Helen, reiterou que ambos os autores, por caminhos distintos, foram fundamentais para situar o sertão e seus detalhes no centro da reflexão sobre a cultura e a literatura nacional.

4.º Fliparacatu

Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.

Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.

Serviço

4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br