
A partir do tema “Mulheres que contam”, Calila das Mercês, curadora do 4.º Fliparacatu e mediadora da mesa de debates, refletiu sobre o verbo “contar”. Segundo a escritora, esse termo pode expressar múltiplas ideias: narrar, contar, numerar, registrar… Tendo a primeira ideia em consideração, Calila afirma que sempre se narra por uma perspectiva – o Brasil que se vê da Bahia não é o mesmo que se vê de Paracatu, nem de São Paulo ou Espírito Santo. Indo além, na presença de Eliana Alves Cruz e Míriam Leitão, questionou como as duas, que escrevem de formas distintas, estão acostumadas a contar histórias sobre o nosso país.
Eliana deu início à sua fala contando que, das quatro edições do Festival Literário Internacional de Paracatu, esteve presente em três. O contato da escritora com a cidade fez com que esse se tornasse uma das “janelas de sua vida”, de onde ela consegue ver o mundo. Da janela concreta de sua casa, Eliana tem um lugar privilegiado para ser escritora, porque é uma oportunidade de ver o mundo. Quem são as pessoas que passam por sua rua? O que elas precisam dizer? De que forma pode contar suas histórias da forma mais original possível? Juntamente à sua ancestralidade, narrar as vidas dessas pessoas é uma forma de narrar o Brasil.
Em continuidade, Míriam conta sobre a perspectiva da qual escreve: uma mineira que nasceu em meados do século passado e que teve que enfrentar regimes ditatoriais e lutar por algumas revoluções, a citar a feminista. A jornalista afirma que, por estar acostumada a narrar o mundo a partir de seu ofício, a pergunta à qual gostaria de responder era outra: por que escolhe narrar pela ficção, se seu trabalho documental é amplamente reconhecido. Míriam respondeu contando que escreve porque precisa e que as histórias que chegam a ela “simplesmente chegam”.
A jornalista deu continuidade em sua fala a respeito de sua escrita e contou a história por trás da escrita do prefácio da reedição de seu livro “Tempos Extremos”. Míriam diz que enviou seus escritos para Calila das Mercês para que sua colega de profissão pudesse opinar acerca do conteúdo. O silêncio de Calila em dar um retorno soou para Míriam como uma resposta negativa. O retorno viria mais tarde, quando Míriam recebe uma carta de Calila com seus pensamentos a respeito do texto lido. Naquele momento, Míriam se encanta com o texto da carta de modo que, com a autorização de Calila, escolheu a carta para ser o prefácio da edição lançada.
Ao longo da conversa, cada uma das escritoras, às suas maneiras e literaturas, discutiram o protagonismo das mulheres na literatura e no jornalismo, mostrando como suas narrativas ajudam a compreender o Brasil e seus diferentes tempos. Antes de encerrar a conversa, Calila questiona o que as autoras estão lendo no momento. Eliana conta que tem lido muitos roteiros, mas apenas com a finalidade de avaliá-los. Neste momento, a escritora lamenta não estar tão dedicada à literatura em razão de seu trabalho, mas acrescenta dizendo que cada dia é uma oportunidade de ler a própria alma e os próprios sinais e, assim, entender quem se é. Míriam, em contrapartida, foi sucinta em sua resposta ao dizer que no momento lê “Nódoa”, livro recém-lançado por Calila das Mercês, mediadora da conversa.
4.º Fliparacatu
Em 2026, o Fliparacatu realiza sua quarta edição entre os dias 26 e 30 de agosto, homenageando dois dos maiores intelectuais brasileiros: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, no centenário de seu nascimento.
Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, além da programação local assinada por Daniela Prado e da curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, o festival reúne escritores, jornalistas, artistas, educadores e pesquisadores para discutir literatura, democracia, meio ambiente, cidades, tecnologia, desigualdade, memória, identidade e os desafios do mundo contemporâneo.
Realizado pela Mentha Cultural, com patrocínio master da Kinross, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Paracatu e da Academia de Letras do Noroeste de Minas, o Fliparacatu acontece em diferentes espaços do Centro Histórico da cidade, aproximando autores, leitores e ideias em uma programação gratuita e aberta ao público.
Serviço
4.º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)
De 26 a 30 de agosto de 2026, de quarta-feira a domingo
Local: Centro Histórico de Paracatu
Entrada gratuita
Programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @fliparacatu
Informações para a imprensa: imprensa@sempreumpapo.com.br